Agroecologia

17ª edição da Troca de Saberes da UFV fortalece a agroecologia e a defesa dos territórios

Evento reuniu movimentos sociais, comunidades tradicionais, estudantes e instituições parceiras em torno da agroecologia, da cultura popular e da participação social

Entre os dias 18 e 20/07, aconteceu a 17ª edição da Troca de Saberes, na Universidade Federal de Viçosa (UFV). O Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab) participou ativamente da construção de um dos principais espaços de diálogo entre os saberes populares e o conhecimento acadêmico do país. 

O evento, realizado durante a 96ª Semana do Fazendeiro, reuniu movimentos sociais, agricultores e agricultoras familiares, povos e comunidades tradicionais, estudantes, pesquisadores e organizações populares em torno da agroecologia, da educação popular e da defesa dos territórios.

Construção coletiva do evento

A participação do Nacab na Troca começou antes do evento em si, como integrante da comissão organizadora, ao lado do Núcleo de Educação do Campo e Agroecologia (ECOA/UFV), do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), do Polo Agroecológico da Zona da Mata e diversas outras instituições e coletivos.

A Troca de Saberes reafirmou a importância da construção coletiva como princípio metodológico, valorizando o encontro entre diferentes formas de conhecimento e fortalecendo as relações entre universidade, movimentos sociais e comunidades dos territórios.

Instalação Artístico-pedagógico (IAP) celebra os 30 anos do Nacab

Um dos destaques da participação do Nacab foi a Instalação Artístico-Pedagógica (IAP) fixa em comemoração aos seus 30 anos. O espaço apresentou publicações, cartilhas, materiais educativos, fotos e registros da trajetória construída ao lado das comunidades atingidas, dos movimentos sociais e das organizações parceiras ao longo de três décadas de atuação.

“O Nacab é muito importante no planejamento e na realização da Troca”, diz Irene Cardoso, professora da UFV e sócia-fundadora do Nacab, que destacou, também, o trabalho de intercâmbio promovido pela entidade, ao trazer pessoas atingidas da Bacia do Paraopeba para o evento: “O Nacab ainda é muito importante na mobilização para a participação dos atingidos de barragens. Sem o Nacab, a voz dos atingidos pelo crime da Vale, a partir do rompimento da barragem de Brumadinho, não estaria presente na Troca”, completa Irene.

A instalação permitiu que visitantes conhecessem parte da história da instituição e das experiências desenvolvidas nos territórios, reafirmando o compromisso do Nacab com a educação popular, os direitos das comunidades e a defesa da vida.”

“As Instalações Artístico Pedagógicas e os Círculos de Culturas são dois importantes instrumentos metodológicos utilizados na Troca de Saberes.”

Irene Maria Cardoso, Professora da Universidade Federal de Viçosa e Co-fundadora do Nacab e CTA-ZM.

Outro momento importante, e que também contou com apoio do Nacab, foi a construção da IAP da Comissão de Enfrentamento à Mineração na Serra dos Puri (Serra do Brigadeiro). A instalação apresentou os impactos da mineração sobre os territórios, os processos de organização comunitária e as alternativas construídas a partir da agroecologia, da participação popular e da defesa dos bens comuns. A atividade evidenciou como a expansão do agronegócio e o interesse de grandes empreendimentos minerários colocam em risco a vida nas comunidades.

Por meio de elementos visuais, culturais e pedagógicos, a instalação convidou o público a refletir sobre os conflitos territoriais e sobre a necessidade de fortalecer as lutas em defesa das comunidades da região.

Campanha em defesa das Sagradas Serras

Durante a Troca, o Nacab também participou do lançamento da campanha “Sagradas Serras”, construída por diferentes organizações em defesa das serras da Zona da Mata mineira. Com o lema “Cuidar das águas, da terra e da vida” , a campanha destaca a importância desses territórios para a produção de água, a biodiversidade, a cultura e os modos de vida das comunidades. Além disso, a palavra de ordem da campanha é “O sagrado é inegociável”, convidando a sociedade a reconhecer que aquilo que sustenta os territórios e os modos de vida das comunidades não pode ser transformado em mercadoria. A campanha nasce do reconhecimento de que defender as serras é defender a memória, os povos, a natureza e o direito das futuras gerações de viver em equilíbrio com seus territórios. 

Apresentação de lançamento da campanha “Em Defesa das Sagradas Serras” – Foto: Victória Ambrósio

Região 3 da Bacia do Paraopeba marca presença na Troca de Saberes

Dezessete pessoas atingidas da Bacia do Paraopeba, assessoradas pelo Nacab, também estiveram presentes nesta edição da Troca. Esta é a quarta vez que este intercâmbio acontece, desde que o Nacab passou a atuar como Assessoria Técnica Independente (ATI) na Região 3 da Bacia, que ainda sofre com os impactos do rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019. 

Foi de extrema importância para mim, tanto como pessoa, como pessoa atingida e também como povo de terreiro. E dessa troca poder compartilhar com outras pessoas vários conhecimentos, vários saberes tradicionais, as trocas de sementes crioulas e experiências de oficinas, rodas de conversa… E teve uma feira muito interessante, com produtos orgânicos e artesanais e poder vivenciar esse momento foi muito importante para mim.

Pai Tozin, Rede de Atingidos da R3 e dirige a Aldeia das Folhas, em Paraopeba, participou de uma cerimônia ecumênica com outros religiosos.

Ele participou, também, de uma roda de transmissão de saberes ancestrais: “A gente fez uma apresentação do feitio da paçoca e eu tive a oportunidade de participar (…) A gente fez o feitio da paçoca, uma forma ancestral que foi ofertada às pessoas que participaram daquela roda naquele momento.” 

Ato pelas ruas de Viçosa e Banquetaço encerram a programação

O encerramento da 17ª Troca de Saberes foi marcado por um grande ato público que saiu do campus em direção ao centro da cidade. Com músicas, bandeiras, apresentações culturais e palavras de ordem, os participantes ocuparam as ruas de Viçosa em defesa da agroecologia, dos territórios e dos direitos dos povos.

A mobilização foi concluída na Praça Silviano Brandão com a realização do Banquetaço, momento de celebração e partilha em que alimentos agroecológicos foram preparados e distribuídos à população. A ação reafirmou que a comida de verdade, produzida com respeito à natureza e às pessoas, alimenta os povos do campo e da cidade.

Ao final do encontro, a 17ª Troca de Saberes deixou como marca o fortalecimento das alianças entre universidade, movimentos sociais e comunidades. Como parte indelével dessa caminhada, o Nacab completa 30 anos e segue semeando conhecimento, fortalecendo territórios e construindo, junto aos povos, caminhos de resistência, participação popular e agroecologia.

Velório das opressões e do capitalismo – Foto: June Ruegger

Reportagem: Carlos Fernando Ribeiro e Fabiano Azevedo
Fotos: Carlos Fernando Ribeiro, June Ruegger e Victória Ambrósio
Edição de texto: Carlos Fernando Ribeiro e Fabiano Azevedo
Comunicação Movimento pela Soberania Popular na Mineração, Polo Agroecológico da Zona da Mata e Territórios em Resistência – Nacab