ATI 39 | MÉDIO ESPINHAÇO

Em carta aberta, comunidade São José do Arrudas pede apoio

Processo de licenciamento do alteamento da barragem de rejeitos da Anglo American está suspenso, mas preocupa moradores que passarão a integrar a zona de autossalvamento (ZAS) da estrutura, caso o projeto seja aprovado. Em carta aberta, eles relatam a situação, pedem apoio e buscam a efetivação de seus direitos

A comunidade São José do Arrudas, localizada em Alvorada de Minas (MG) e atingida pelo Sistema Minas-Rio, da Anglo American, escreveu, no final de agosto, uma Carta Aberta à sociedade. No documento, os moradores relatam impactos/danos e transformações que têm vivenciado desde o início das atividades da mineradora na região, com destaque para preocupações em relação ao projeto para 2º alteamento da barragem de rejeitos.

Entre outros problemas citados, a comunidade também aponta a sensação de insegurança na rodovia MG-010, que corta a comunidade e recebe intenso tráfego de veículos pesados, como caminhões e ônibus ligados às atividades do Minas-Rio. Moradores contam que isso tem dificultado sua rotina e as práticas culturais, como as cavalgadas. “Por não ter sinalização adequada, essa rodovia transformou aquilo que era parte de uma tradição de lazer e fé em uma ameaça diária às nossas vidas,” descrevem os moradores. 

A carta destaca que o projeto de 2º alteamento da barragem de rejeitos, incluiria a comunidade em Zona de Autossalvamento (ZAS). De acordo com o Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) apresentados pela Anglo American no pedido de licenciamento ambiental para o 2º alteamento da barragem de rejeitos, a mancha hipotética de inundação (caso ocorra ruptura) alcançaria parte da comunidade São José do Arrudas. O pedido de Licença Prévia (LP), feito em agosto de 2024, estava em avaliação pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), depois da entrega de documentos e da realização de audiências públicas.  

Sessão do Tribunal Pleno (14/08/2025) | Divulgação: TCEMG

Em agosto deste ano, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) determinou a suspensão deste processo de licenciamento ambiental, baseando-se no artigo 12 da Lei Estadual nº 23.291/2019, “Mar de Lama Nunca Mais”, que proíbe construção ou alteamento de barragens onde tenham moradores abaixo delas, na chamada ZAS. Na decisão, além de considerar as comunidades hoje situadas a jusante da barragem de rejeitos, na atual cota de 700 metros de altitude, foi determinante o fato de o projeto de elevação da cota para 725 metros incluir São José do Arrudas em área da ZAS e não haver um plano de reassentamento específico para essa comunidade.   

No momento, a mineradora Anglo American executa um Plano de Reassentamento das comunidades localizadas na ZAS atual, que inclui Água Quente, Passa Sete, São José do Jassém, Beco e localidades que estão na mancha de inundação da barragem de rejeitos. O termo de acordo para esse plano foi assinado em dezembro de 2024, entre a mineradora, comunidades (assessoradas pelo Nacab), estado e municípios. Na ocasião, moradores de São José do Arrudas se recusaram a assinar o acordo, por não terem participado do processo de construção, ao longo de mais de um ano. Nos últimos meses, a mineradora tem dialogado com moradores de Arrudas e apresentado seus planos de reassentamento. No entanto, a comunidade reivindica um plano próprio, considerando suas especificidades.

Na Carta Aberta, os moradores de São José do Arrudas reconhecem a suspensão do processo de licenciamento para ampliação da barragem de rejeitos como “uma vitória que precisa ser fortalecida”. E solicita apoio para garantir seus direitos, reconhecidos em legislações como a Lei “Mar de Lama Nunca Mais” e as políticas estadual e nacional dos Atingidos por Barragens (PEAB e PNAB). 

Nesse sentido, são destacadas quatro reivindicações: que a mancha hipotética da barragem de rejeitos seja avaliada por um órgão técnico independente, para uma contraprova da modelagem apresentada pela mineradora; que o direito ao reassentamento seja para toda a comunidade; que haja participação ativa da comunidade na construção de um plano de reassentamento específico para ela; e que os danos socioambientais sofridos em decorrência das operações do Sistema Minas-Rio sejam reparados e/ou mitigados. 

Confira na íntegra a Carta Aberta de São José do Arrudas: 

Texto: Patrícia Castanheira, Brígida Alvim e Janaíne Ferraz
Locução: Janaíne Ferraz
Edição de áudio: Patrícia Castanheira
Comunicação ATI 39 Nacab