Entre os dias 24 e 28 de agosto, Fortaleza (CE) sediou o II Encontro Nacional do MAM – Movimento pela Soberania Popular na Mineração. Membros do Nacab, da Rede de Atingidos da Região 3, da Comissão Regional de Enfrentamento à Mineração da Serra dos Puris, na Zona da Mata, além de pessoas atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho e pelas operações minerárias em outras regiões de Minas Gerais.
Também participaram militantes, organizações, movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades atingidas pelos impactos do modelo capitalista de exploração mineral. O objetivo foi compartilhar experiências e definir estratégias de enfrentamento a violações de direitos humanos decorrentes de ações de grandes empresas do setor e em defesa do direito aos territórios.
Sob o lema “Lutar pelo Território, Controlar o Subsolo”, o encontro debateu os desafios impostos pelo modelo minerário brasileiro, que gera impactos sociais, econômicos e ambientais.

Na abertura, a cientista política Monica Bruckmann (UFRJ) e a pedagoga Ayala Ferreira, dirigente nacional do MST, apresentaram análises de conjuntura e reflexões sobre a apropriação capitalista dos recursos naturais, em especial os minerais.
O segundo dia foi marcado pela mesa “Crise Climática e Transição Energética: Quais os desafios e contradições considerando a luta popular?”, que contou com a participação da ativista da ecologia política e pesquisadora da Fiocruz, Soraya Tupinambá, e do professor Gustavo Seferian, da UFMG.
Um destaque foi a Feira Cultural da Agrobiodiversidade do MAM, com produtos da agricultura familiar de territórios atingidos, artesanato popular, troca de sementes e apresentações musicais.

O encerramento ocorreu com uma marcha pelas ruas de Fortaleza, que saiu da Estátua de Iracema Guardiã em direção ao Palácio da Abolição, sede do governo estadual. Mais de mil pessoas participaram, levantando bandeiras em defesa do direito aos territórios e do poder de decidir sobre a mineração.
“Tenho um filho de 5 anos e a gente toma uma água lá que nem sabe de onde vem porque eles chegaram, tiraram nossa nascente, que era uma água boa, e furaram um poço artesiano e deixaram a gente isolados. Todo dia eles soltam bombas (detonações na mina). A casa começou até a dar trincaduras porque todo dia eles soltam bombas, pegam o minério deles e vão embora”
Elaine Simões, moradora de Gondó (Conceição do Mato Dentro), atingida pelas operações minerárias da Anglo American e assessorada pelo Nacab
“Eu fico muito satisfeito de saber que as pessoas se integraram, se relacionaram, e aquilo que é mais relevante para todo mundo: ninguém está sozinho nessa luta! Essa luta ela é desde o ‘descobrimento’ do país. Nós estávamos lá [no encontro] com os povos originários e eles sofrem com isso desde então e nunca desistiram. Isso é um exemplo para gente seguir, porque se eles até hoje resistem, enfrentam tantas dificuldades, a gente não pode esmorecer com a primeira derrota”
Abdalah Nacif, da comunidade de Beira Córrego (Fortuna de Minas), atingido pelo crime da Vale, em Brumadinho
“Entendemos que o MAM é extremamente importante e que a luta pela soberania popular na mineração é urgente diante do avanço do capital sobre os nossos territórios e nossos recursos minerários”
Marluce Abduane, diretora do Nacab
Ela destacou ainda que retorna a Minas Gerais com “mais energia, conhecimento e paixão para encarar os desafios que vêm pela frente”, agradecendo ao MAM pela realização do encontro.
Texto e fotos: Luís Henrique do Carmo
Edição: Fabiano Azevedo
Publicação: Marcos Oliveira