Na última quarta, 5 de novembro, o maior crime ambiental da história do país, o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, completou dez anos. Para manifestarem a indignação, tanto com o crime, quanto com o processo de reparação, as pessoas atingidas da Bacia do Rio Doce, juntamente com representantes das pessoas atingidas da Bacia do Paraopeba, se reuniram na porta da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em protesto contra a mineração predatória e o desrespeito ao meio ambiente.
O desastre-crime de Mariana, apelidado de “Mar de Lama”, não poderia ganhar outro nome. Mais de 60 milhões de metros cúbicos de rejeito atravessaram os estados de Minas Gerais e Espírito Santo até encontrar com o mar, deixando um rastro de poluição e morte.
O rompimento da barragem, de propriedade das empresas Vale, BHP Billiton e Samarco, destruiu o distrito de Bento Rodrigues, cobrindo casas, varrendo vegetação e histórias de um lugar considerado tranquilo e sereno. Outro distrito violentamente atingido foi Paracatu de Baixo, onde a lama deixou centenas de desalojados. Além das 19 mortes de pessoas que estavam no caminho da lama, o rejeito alcançou um dos principais mananciais mineiros, o Rio Doce, que abastecia centenas de cidades e alimentava tradições das comunidades em seu entorno.
“É muita tristeza! Eu moro em Cachoeira Escura desde 1973 e o rio sempre foi um lugar importante para a gente. Hoje eu não sinto prazer nenhum de ir à beira do rio. Eu ainda tenho esperança de ver o rio limpo como antes, porque a esperança é a última que morre. Os ribeirinhos não sabem mais nem como fazer sem o rio. A gente está aqui pedindo para que o governo [de MG] olhe por nós. Veja como estamos sofrendo com a falta de água até hoje”
Ednilson Gomes da Silva, morador da comunidade de Cachoeira Escura, em Belo Oriente, no Vale do Aço
Ato unificado contra a mineração predatória
Pela manhã, o ato reuniu pessoas atingidas dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, além de um grupo de representantes do sul da Bahia, que lutam para também serem reconhecidos como atingidos pelo rompimento da barragem do Fundão.
Representantes da Rede de Atingidos da Região 3 da Bacia do Paraopeba estiveram no encontro e, além de prestar solidariedade às vítimas de Mariana, cobraram uma reparação justa e efetiva às comunidades atingidas pelas mineradoras.
“Hoje o movimento não está falando somente da pauta do rompimento, mas também das privatizações das estatais. Então são vários movimentos juntos. Esperamos que, com a união desses movimentos, nos ouçam e comecem a nos socorrer. O povo de Minas Gerais pede socorro. Mariana há 10 anos, Brumadinho há quase 7 anos, e nada aconteceu”
Patrícia Passarela, moradora de Esmeraldas e uma das representantes da Rede de Atingidos da R3
Privatização também foi alvo de protestos
O encontro também reuniu manifestantes contrários a privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), responsável pelo tratamento e distribuição de água em diversas cidades mineiras. Vale lembrar que a Copasa atua no Acordo de Reparação da Bacia do Paraopeba, como uma das intervenientes do Anexo 2.3 (Projetos de Segurança Hídrica, no âmbito da reparação socioambiental).
Representando o Governo Federal, estavam presentes no ato Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, e Macaé Evaristo, ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania.
“O compromisso do Governo Lula, em relação ao crime cometido há 10 anos em Mariana, é seguir em frente com a reparação ambiental, reparação humana e reparação social para as comunidades. E esperamos que, mesmo que tarde, os responsáveis por esse crime sejam punidos criminalmente”, ressalta Boulos.
Além deles, participaram representantes do legislativo mineiro, como Bella Gonçalves (PSOL), presidenta da comissão dos Direitos Humanos de Minas Gerais, e Beatriz Cerqueira (PT), presidenta da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da ALMG. Também estiveram presentes os deputados federais Rogério Correia e Padre João, ambos do PT.
Após a manifestação na Assembleia, as pessoas atingidas caminharam até o Tribunal Regional Federal para pedirem a inclusão das comunidades do sul da Bahia, além de participarem de uma reunião com o juiz auxiliar do presidente do Tribunal de Justiça de MG.
Texto: Marcio Martins
Fotos: Luís Henrique do Carmo
Edição: Fabiano Azevedo
Publicação: Marcos Oliveira