Terminamos o ano de 2025 com pé direito e muita celebração, iniciando os trabalhos do projeto Teia Agroecológica de Mulheres que, desde outubro, está atuando na Região 3 da Bacia do Paraopeba com grupos de mulheres atingidas pela desastre-crime da barragem de Brumadinho.
O Teia é fruto de uma parceria entre o Nacab e o mandato da deputada estadual Bella Gonçalves (Psol), por meio de emenda parlamentar, e tem como objetivo o fortalecimento de processos formativos, de produção e comercialização de agricultoras familiares, artesãs e lideranças comunitárias, com vistas à autonomia e autogestão de grupos já organizados no território.
Com duração de 12 meses, o projeto tem como alicerces a agroecologia, a saúde e a comercialização. Ao fim do processo de diagnósticos, oficinas e intercâmbios, previstos no plano de trabalho, espera-se que os grupos tenham um plano de negócios em mãos, resultado da assessoria para mercados – um gargalo para pequenas produtoras rurais.




Uma primeira rodada de apresentação do projeto foi realizada em dezembro em quatro comunidades atendidas pela Assessoria Técnica Independente (ATI) Paraopeba Nacab: Muquem, localizada no município de Pará de Minas, Cachoeirinha, em São José da Varginha, Três Barras, em Fortuna de Minas e Soledade, no município de Pequi.
Em roda e de mãos dadas, firmamos o compromisso de apoiar os grupos a partir de suas demandas e tecer uma rede de produção e comercialização que possa fortalecer o contexto socioeconômico do território a partir do potencial produtivo das mulheres.
Força e criatividade feminina: mulheres no centro
O Nacab tem uma sólida atuação como Assessoria Técnica Independente na Bacia do Paraopeba desde que fomos escolhidos, em 2019, pela população atingida. No processo de diagnóstico do atingimento nas comunidades da Região 3, houve uma compreensão de que os danos são sofridos de formas diferentes para mulheres e homens, idosos e jovens, povos e comunidades tradicionais e, portanto, sofrem recortes de classe, raça, idade e gênero.
Para Luiza Monteiro, coordenadora do escritório do Nacab em Pará de Minas, o projeto chega para potencializar a participação das mulheres do território no processo de reparação, fortalecer as pautas específicas e a organização coletiva.
Ela explica que foi realizada uma pesquisa com as mulheres que revelou prejuízos vivenciados de maneiras distintas. Ou seja, para elas os impactos foram específicos. “No processo de reparação, a assessoria buscou atuar a partir desse olhar voltado às mulheres, porém trata-se de uma atuação que possui limites.”
Por isso, o Teia Agroecológica de Mulheres está pautado no fortalecimento dessa rede de pertencimento e identidade e pretende conectar os diferentes territórios, ampliando os laços entre os grupos, contribuindo para o enraizamento de práticas e processos autônomos das mulheres artesãs, agricultoras e quitandeiras do Paraopeba.
Participamos da Marcha das Mulheres
A atuação do Nacab dentro da pauta de gênero se estende em outros espaços. Em novembro de 2025, participamos da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada em Brasília. Dentre as mais de 300 mil participantes, lá estavam as representantes das comunidades atingidas para ocupar a Esplanada dos Ministérios, com o lema “Por Reparação e Bem Viver”, reivindicando mais protagonismo, mais enfrentamento ao racismo institucional, mais políticas públicas e mais espaço de poder para aquelas que sustentam o país e seguem sendo as mais afetadas pelas desigualdades.



O Nacab fez parte da caravana do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), que levou representantes de religiões de matriz africana da Região 3. Com representação do Terreiro Nzo Atim Kinbé Loyá (Mãe Indoloya), Terreiro Pai Xangô (Pai Jardel) e Terreiro de Umbanda Oxóssi Sultão das Matas (Pai Riquinho). “Esse é um marco importante para a luta das mulheres. Já se passaram dez anos da primeira Marcha das Mulheres Negras, e reafirmamos a luta pela reparação histórica, por direitos e reconhecimento. Também denunciamos o racismo religioso e ambiental, assim como a mineração predatória, que seguem fazendo vítimas nos territórios atingidos” diz Rute Santos, analista do Nacab.
Texto: Nathália Iwasawa
Edição: Fabiano Azevedo e Junia Lousada
Fotos: Nathália Iwasawa, Rita de Cássia e Acervo Nacab