“Não, não, não, não, não…
Uma flecha não bastou pra calar a sua voz
São Sebastião! São Sebastião, rogai por todos nós!”
(trecho de música São Sebastião, de Padre Joãozinho)
Em janeiro, a comunidade de São José do Jassém, em Alvorada de Minas, se reuniu para celebrar e renovar a fé no mártir São Sebastião. A tradicional Festa teve novena, cavalgada, benção dos cavaleiros, missas, levantamento do mastro e leilão de bezerros. Esse ano, a comemoração teve valor ainda maior para os moradores, que estão em processo de reassentamento, devido à localização da comunidade na zona de autossalvamento (ZAS) da barragem de rejeitos da Anglo American. O sentimento comum é que essa festividade deixará de ser realizada em São José do Jassém, mas a esperança é que ela possa ser continuada no futuro reassentamento coletivo ou em outra localidade.
O festeiro deste ano carrega em seu nome a homenagem ao santo. Sebastião Otávio Alexandrino da Lomba esteve à frente da organização e contou com apoio de seus familiares e de toda a comunidade para manter viva a tradição. Ele conta que cada pessoa teve papel crucial para realização da festa. A organização envolveu muitas tarefas, como a busca de recursos financeiros, produção de documentos e resolução de questões burocráticas, logística, decoração, organização da programação litúrgica e do leilão.

“É como se a fé renovasse à cada festa, não tem como explicar, é se sentir melhor em cada novo janeiro em meio às homenagens ao grande mártir! O que começou de forma simples cresceu, uniu pessoas e se transformou em tradição. Mas a cada ano vem diminuindo (o número de participantes), pela relocação das comunidades e com o processo de reassentamento. Assim como a festa de rua (realizada no meio do ano), que também sofreu bastante impacto, reduziu drasticamente o número de visitantes”, expressa o festeiro.
Sebastião Otávio Alexandrino da Lomba
20ª Cavalgada de São Sebastião
A Festa de São Sebastião é feita pelos moradores de São José do Jassém desde 2002. No sábado, 31/01, a programação foi marcada pela 20ª Cavalgada de São Sebastião, que reuniu moradores, comitivas e visitantes. Participaram muitas crianças, jovens, adultos e pessoas da “melhor idade”. O cortejo a cavalo seguiu até a Capela, onde houve a “Benção aos Cavaleiros”, missa celebrada pelo padre Adão, o levantamento do mastro de São Sebastião e queima de fogos.
Para a concentração e início da Cavalgada, a moradora Terezinha Aparecida Alexandrina da Lomba, irmã do festeiro, abriu as porteiras do seu sítio para receber os moradores e visitantes, com muita fartura, música e animação. A anfitriã disse: “É daqui do sítio Sumaré que sairá a cavalgada, para a gente é um prazer estar recebendo todo mundo aqui. Estamos com o coração aquecido, porque são pessoas que carregam devoção e fé no mártir São Sebastião, inclusive esse mastro é desde a primeira festa.”

Moradores de outras comunidades também estiveram presentes. Charles Batista da Silva, da comitiva “Os Tralhados” de São José da Ilha, conta que é a primeira participação da comitiva, mas ele já esteve outras vezes na festa e considera muito importante reunir as comunidades e os amigos para celebrar a fé e divertir, ao mesmo tempo.
Genilson Teixeira dos Santos Silva, da Comitiva “100 Fronteira”, do Beco, conta: “Eu tenho 33 anos e venho na Festa de São Sebastião aqui do Jassém desde quando eu tinha 12 anos. A família do meu pai é daqui. Eu vinha com ele no cavalo, meu pai montado e eu na garupa. Essa festa é uma tradição e não pode acabar com o reassentamento, né? Toda a comunidade gosta demais”.
E é uma tradição quem vem sendo passada de geração a geração. Gabriela Carvalho Silva, de 11 anos, participou pela primeira vez da cavalgada. Ela conta que adora cavalos e que gostou muito de ter acompanhado: “Foi muito legal, eu fui e voltei a cavalo sozinha. Espero participar outras vezes da cavalgada!”
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Comitiva 100 Fronteiras – Beco | Foto: Georgyanne Sena
Comitiva Os Tralhados – São José da Ilha | Foto: Georgyanne Sena
A esperança de toda comunidade é que a festa seja preservada e resista, mesmo após o reassentamento.
“Essa cavalgada é tradição. Nosso anseio e desejo é que essa Festa de São Sebastião seja levada para o reassentamento ou para outras localidades que a comunidade for. Já estamos em conversa com a arquidiocese, pedindo apoio para que a gente consiga a nossa capela para onde a gente vá, justamente para manter as nossas tradições.”
Terezinha Aparecida Alexandrina da Lomba
A história da Festa
Na varanda da casa paroquial, Maria das Dores Lomba Santos, chamada na comunidade de “Tia Dora” e Sebastião dos Santos, conhecido por Batica, lembram como começou a celebração da fé em homenagem ao santo. Ela explica que surgiu porque o Batica tem muita devoção em São Sebastião e queria fundar uma igreja em homenagem ao santo, mas o padre, na época, esclareceu que em localidades pequenas era muito difícil ter duas igrejas, sendo assim tiveram a ideia de fazer uma homenagem diferente: “Colocamos uma imagem de São Sebastião aqui na igreja de Nossa Senhora da Conceição, aí você (Batica) realiza o seu sonho. Isso foi na época do Padre Antônio Dias. Ele celebrou a missa, fizemos a procissão e levamos a imagem de São Sebastião à igreja. Isso foi em 2002 e aí continuou até hoje”, conta.

Tia Dora também diz que toda a comunidade tem muita fé em São Sebastião e que sempre aconteceu a cavalgada, mas em alguns anos falhou e ela tem a esperança de que a festa continue após o reassentamento das famílias de São José do Jassém. “Eu espero que continue para onde eles forem, porque eu não vou acompanhá-los, para o reassentamento coletivo. Espero que onde eles tiverem, que tenha uma igreja que possa estar essa mesma imagem, né? Acompanhando a mesma tradição e que eu possa, se Deus permitir, estar junto com a minha comunidade”, diz a fundadora da festa.
A emoção tomou conta de toda a comunidade durante a bênção dos cavaleiros, um momento de muita fé e agradecimento. Marilene Pacífico da Silva, emocionada, expressou todo seu amor por São José do Jassém: “O peito aperta, só de imaginar que isso tudo vai acabar. O lugar que a gente foi nascida e criada, acabar assim… Não é fácil, não. Eu tenho a esperança de conseguirmos manter nossa crença e tradição. Jassém é minha vida, é meu mundo!”
Confira o álbum de fotos no link: https://drive.google.com/drive/folders/1grSXTFVYd1d2l_UIcp9EB57u7E4MOJea?usp=sharing
Reportagem e Fotos: Georgyanne Sena
Edição: Brígida Alvim
Locução: Georgyanne Sena e Janaíne Ferraz
Comunicação ATI 39 Nacab