Paraopeba

Terreiros de Paraopeba inauguram capacitações previstas para Povos e Comunidades Tradicionais no Anexo 1.3

Oficinas se destinam a grupos religiosos de matriz africana do município

Enfim foram iniciados, no âmbito do Anexo 1.3 do Acordo de Reparação, os cursos profissionalizantes para os Povos de Comunidades Tradicionais (PCTs) em duas casas de umbanda da cidade de Paraopeba: Aldeia das Folhas Tenda Pai Julião das Almas e o Terreiro de Oxóssi Sultão das Matas.

O Anexo 1.3 prevê o fortalecimento de políticas públicas nas comunidades atingidas. Para os PCTs, que têm direito a consulta prévia sobre projetos que impactem seus territórios, foi realizada Consulta Popular, que definiu o que seria priorizado para cada um dos 46 Povos e Comunidades autorreconhecidos em toda a Bacia do Paraopeba.

Após uma longa espera entre a Consulta e a execução dos projetos, os integrantes dos terreiros de Paraopeba e da comunidade quilombola da Pontinha têm, agora, a oportunidade de se aprofundar em diferentes áreas do conhecimento: desde informática básica, cerâmica, corte e costura e iniciação musical, até construção de instrumentos, auxiliar de cozinha, agente cultural e administrativo.

ALDEIA DAS FOLHAS

Na Aldeia das Folhas, os cursos iniciados em fevereiro foram de Fabricação de instrumentos tradicionais afrobrasileiros, com o mestre Fernando Pereira, e de Toque e percussão, com o mestre Bruno Batista. A escolha foi baseada na busca pela preservação dos ritmos sagrados e da profissão que tem desaparecido do mercado: a de mestre na confecção e reparos dos instrumentos, conhecida como luthier. O primeiro acontece nas terças e quartas e o segundo, nas quintas, até maio de 2026. São 20 vagas para cada cursos, destinadas aos filhos e filhas de santo da casa.

“As expectativas são boas para o crescimento, o aprendizado, o desenvolvimento e o fortalecimento da comunidade. É com muita esperança que a gente inicia esses cursos, porque a gente está em busca da reparação, em busca de novos horizontes”, ressalta a liderança religiosa da Aldeia das Folhas Tenda Pai Julião das Almas, Pai Tozinho.

“Espero que eles gostem do curso e se deem bem com essa experiência nova, de produção e proteção de instrumentos, principalmente o atabaque, pandeiro, alfaia e xequerê. São instrumentos da cultura popular. A prática eles vão adquirindo no decorrer da produção”, afirma o mestre Fernando, que tem 30 anos de experiência como luthier. Os instrumentos fabricados ficarão para a entidade.

Os próximos cursos na casa, em datas ainda não confirmadas, são os de Artesanato em cerâmica, Corte e costura e Agente administrativo.

OXÓSSI SULTÃO DAS MATAS

No terreiro Oxóssi Sultão das Matas, liderado por Pai Riquinho, foi inaugurado, no dia 24 de fevereiro, o curso de informática básica. Contemplando todo o Quilombo da Pontinha, comunidade onde o terreiro está localizado, o curso abriu 30 vagas, utilizando a estrutura escolar do território.

Entre o público-alvo estão jovens, adultos e idosos com diferentes interesses. Por exemplo, Ângela Maria de Jesus Costa, moradora do quilombo há 16 anos, agora aposentada, busca novas fontes de renda e modos de viver com a tecnologia.

“Eu quero melhorar o pouco que eu sei e que vai me ser útil no dia a dia: planilhas, controle de lar, é isso que eu quero. Eu já tiro xerox para o pessoal, porque aqui não tem lugar, aí eu tiro lá em casa. Mas, imagino que eu poderia ajudar mais: digitar um currículo, criar convites. Eu sei que eu posso copiar, mas eu quero aprender a fazer”, comenta Ângela.

Sandra, que também é presidente da associação quilombola da comunidade, comenta sobre o que espera da formação: “A minha expectativa é me formar, avançar, aprender, para o trabalho e vida social. Mas especialmente para usar a tecnologia como presidente da associação. E eu sei que esse curso aqui vai ser um aprendizado.”

Para o terreiro, ainda estão previstos os cursos de Agente cultural, Assistente administrativo e Auxiliar de cozinha.

Texto e fotos: Iara Milreu
Edição: Fabiano Azevedo e Marcio Martins