Paraopeba

Rede de Projetos promove debate entre pessoas atingidas e Universidade

Conselhos e Setores da Região 3 e UFV de Florestal discutem estratégias para os projetos do Anexo 1.1

A ATI Paraopeba Nacab promoveu, nos dias 17 e 18/04, o Encontro Rede de Projetos, no campus de Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), com apoio da Rede de Atingidos da Região 3, da APA+ e da UFV.

O evento reuniu 160 pessoas atingidas da Região 3, representando os Conselhos e Setores em nível local e regional, que apresentaram e discutiram seus projetos  prioritários para o Anexo 1.1 do Acordo de Reparação pelo rompimento da barragem da Vale, em 2019.

O Anexo 1.1 (Projetos de Demandas das Comunidades) é a parte do acordo que vai executar projetos desenhados pelas próprias pessoas atingidas, em toda a Bacia do Paraopeba. Nesta primeira fase, serão destinados R$ 300 milhões para o anexo.

Foram convidados para o encontro os professores Helder Resende e Crispim Moreira, da UFV, Aderval Costa Filho, da UFMG, além de Julio Martínez, da Fundação Mundukide, entidade internacional de fortalecimento e promoção do cooperativismo que está iniciando uma parceria com o Nacab. Também estiveram presentes representantes da Entidade Gestora do Anexo 1.1 e de organizações locais como o Cerrado Vivo, a Aflora (Associação Florestalense de Agroecologia) e o projeto comunitário Balaio dos Saberes.

“A UFV está de portas abertas para a Região 3, e para toda a região atingida pelo rompimento da barragem, em projetos que a gente pode auxiliar desde a formação inicial, a formação continuada, cursos de especialização e, especialmente nos Projetos de Demandas [das Comunidades], que a gente pode ajudar a construir esses projetos”, pondera o professor-anfitrião Helder Resende. “Hoje está se conversando sobre as ideias de projetos, mas como serão executados? É para isso que a gente quer reabrir a universidade, para que a comunidade participe da universidade e a universidade participe da comunidade”, completa o professor, que é pesquisador de abelhas e mediou o grupo temático sobre apicultura.

“As pessoas atingidas se organizaram em seus locais, tanto comunidades quanto municípios, a partir das grandes temáticas que elas querem trabalhar nos projetos. E essas temáticas foram escolhidas a partir de um diagnóstico que a gente realizou ao longo de todos esses anos, é um trabalho acumulado de seis anos de atuação. O que é que existe em cada comunidade? Quais são as potencialidades? Como essas comunidades interagem no município, no conselho local? Então, aqui a ideia é que sejam priorizados esses projetos que, num momento posterior, quando a Entidade Gestora for priorizar projetos, [as pessoas atingidas] já tenham isso bem forte, bem delimitado e bem desenhado em termos de iniciativa, já entendam o contorno do projeto dentro de uma temática.”

Marília Andrade Fontes, coordenadora geral da ATI Paraopeba Nacab

Junto aos convidados e aos técnicos do Nacab, as pessoas atingidas debateram, na manhã do dia 17, metodologias e diretrizes dos projetos apresentados. As Instâncias e Setores Locais, além da Instância Regional, fizeram Instalações Artístico-Pedagógicas (IAPs) para apresentar seus projetos, onde foram apontados problemas e soluções, estratégias de viabilização e possibilidades de interação entre diferentes projetos.

Ângela Santos, da comunidade de Ribeirão do Ouro, em Florestal, destacou a troca de experiências proporcionada pelo encontro: “Tive a oportunidade de conhecer outras ideias de projetos que podem ser desenvolvidos dentro da proposta de quintais produtivos. A gente pode pensar, por exemplo, na criação de pequenos animais e na piscicultura. Foi uma oportunidade de perceber como nossos projetos se conectam e podem se fortalecer a partir dessa troca de experiências”, contou ela, que, ao abordar os desafios enfrentados, chamou a atenção para a dura realidade que envolve os projetos apresentados pelos municípios: “Pará de Minas tem dialogado bastante sobre projetos que envolvem quintais produtivos e piscicultura, mas o maior desafio [no caso da piscicultura] é a falta de água, devido à contaminação do rio Paraopeba. Para esses projetos, seria necessário um orçamento maior, pois envolve a perfuração de poços e outras estratégias de captação. Nesse cenário, os quintais produtivos acabam se apresentando como uma alternativa mais viável.”

À tarde, cada participante escolheu um dos grupos temáticos, conduzidos por convidados e técnicos do Nacab, para debater criticamente cada um dos temas que envolvem os projetos.

À noite, houve Troca de Sementes e Mudas, feirinha com produtos das pessoas atingidas e apresentações artísticas do Pai Tozinho, da Aldeia das Folhas Pai Julião das Almas, em Paraopeba, e do músico Rubinho do Vale.

No dia seguinte, uma mesa com o tema “Arranjos produtivos e desenvolvimento territorial” reuniu, além dos professores convidados e de Julio Martínez, da Mundukide, a coordenadora geral da ATI, Marília Fontes, e os representantes da Rede da R3, Rogerio Gianetti, de Fortuna de Minas, Renato Moreira e Ênio Clécio, ambos da Comunidade Quilombola da Pontinha. A mesa abordou a importância da economia solidária e do cooperativismo no contexto do fortalecimento regional e a necessidade de mudanças nas matrizes tecnológicas rumo a uma transição agroecológica.

Leandra Vieira, do quilombo Retiro dos Moreiras e representante do Conselho Local de Fortuna de Minas, destacou que a criação de uma cooperativa tem se consolidado como uma das principais demandas da comunidade: “Um projeto que tem chamado a atenção da nossa comunidade é a criação de uma cooperativa. Percebemos que essa é uma demanda comum em outras comunidades também. Muitas enfrentam necessidades de reforma e reestruturação, mas a maioria precisa, principalmente, de espaço”, explicou. Ela enfatizou a importância do Rede de Projetos para fortalecer a articulação entre comunidades e instâncias organizativas: “Esse momento é muito importante para alinhar a relação entre conselhos e setores. Em espaços como esse, percebemos como nossas comunidades, apesar das diferenças, estão conectadas e articuladas em rede de projetos. Isso é fundamental para a nossa organização como atingidos.”

Já na tarde do dia 18, os grupos temáticos deram continuidade às discussões, e cada grupo apresentou um resumo do que foi debatido. O evento se encerrou com apresentação do grupo indígena da Aldeia Kamakã Kaehá Puá, de Esmeraldas.

Rede de Projetos pretende integrar toda a Região 3

A intervenção da universidade e de pessoas com conhecimentos teóricos aprofundados nos temas dos projetos foi vista como algo muito positivo pelos convidados. “Efetivamente é preciso dar esse suporte e esse estímulo, pensar junto e trazer também especialistas para dialogar com as comunidades e com os atingidos”, afirmou o professor Aderval Costa Filho. “É também muito salutar, porque tem algumas questões que não são de fácil trato e de fácil resolutividade. Por exemplo, a regularização fundiária dos territórios é uma questão que talvez a reparação não vá resolver efetivamente… Outra questão é a da água, né? Enfim, existem questões imprescindíveis, e no diálogo a gente consegue fomentar não só a discussão quanto também pensar soluções possíveis, exequíveis dentro do que está posto no processo de reparação”, completa.

A partir desse encontro, a ideia é que as instâncias busquem possibilidades de integração em um projeto maior, de desenvolvimento regional. “Alinhavar isso tudo num projeto de desenvolvimento que seja plural, que seja de fato diverso, mas que traga para a região um processo que vá fazer com que a vida das pessoas que foram extremamente impactadas a partir desse crime, que elas consigam reconstruir renda, reconstruir esse tecido cultural que existia nas comunidades a partir do rio, fortalecer a cultura e as tradicionalidades”, diz Marília Andrade. “Então, a ideia é que isso tudo seja pensado não só numa comunidade ou município, mas que seja pensado enquanto uma região composta por dez municípios, diversas comunidades, uma diversidade muito grande de pessoas”, define ela.

Texto e edição: Fabiano Azevedo
Colaboração: Pedro Reinaux
Imagens: PH Reinaux, Ariane Silva e Luis Henrique do Carmo