Paraopeba

Prioridade apenas no papel: R$ 36 milhões para Centros de Referência de Atendimento às Mulheres chegam com 5 anos de atraso 

Combate à violência contra a mulher, definido como uma prioridade do Acordo de Reparação do desastre-crime em Brumadinho, caminha a passos lentos

No dia 2 de junho de 2026, 24 municípios da Bacia do Paraopeba atingidos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho assinaram um termo de compromisso para receber cerca de R$ 36 milhões destinados a combater a violência contra a mulher, como parte do Acordo Judicial de Reparação de Brumadinho.  

Os cerca de R$ 1,5 milhão para cada município serão utilizados para implementar e manter, por quatro anos, os Centros de Referência Especializados no Atendimento à Mulher em situação de violência (CREAMs), que vão oferecer acolhimento psicológico, social e jurídico para mulheres em situação de violência, incluindo atendimento itinerante.  

Os CREAMs fazem parte dos Anexos 1.3 e 1.4 do acordo de reparação, assinado em fevereiro de 2021 entre o Governo de Minas, a Vale e Instituições de Justiça. Isso significa que as mulheres atingidas ainda estão esperando, mais de 5 anos depois do acordo, medidas concretas de combate à violência de gênero, cuja intensificação foi um dos impactos do rompimento da barragem em 2019. 

Veja lista dos municípios que vão receber os CREAMs:
  
Abaeté, Betim, Biquinhas, Brumadinho, Caetanópolis*, Curvelo, Esmeraldas*, Felixlândia, Florestal*, Igarapé, Juatuba, Maravilhas*, Mário Campos, Mateus Leme, Paineiras, Papagaios*, Pará de Minas*, Paraopeba*, Pequi*, Pompéu, São Gonçalo do Abaeté, São Joaquim de Bicas, São José da Varginha* e Três Marias.

Legenda: *municípios da Região 3

Creams nos municípios substituem proposta de centro único em Juatuba, anunciada em 2024 

A assinatura do termo retoma a demanda de atendimento municipalizado, mais próximo aos locais de moradia das mulheres atingidas que, com a decisão das Instituições de Justiça e do Governo de Minas de 2024, teriam que se deslocar até o município de Juatuba para procurar atendimento na Casa Acolhe Minas, apresentada como centro de apoio às mulheres em situação de violência doméstica para atender demandas de 17 municípios atingidos, concentrando em um só local o que havia sido pensado, originalmente, como uma rede de atendimento territorializada.  

Violência contra a mulher cresce onde não há política especializada 

De acordo com a pesquisa “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em março de 2026, metade dos feminicídios registrados no Brasil ocorre em cidades com menos de 100 mil habitantes, onde não há em geral políticas públicas especializadas de proteção às mulheres: 27,1% têm ao menos um serviço especializado da rede de proteção, mas apenas 5% possuem Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e 3% têm Casa Abrigo. Muitas das cidades atingidas pelo rompimento da barragem na Bacia do Paraopeba se enquadram nesse perfil.  

Mulheres atingidas relatam aumento da violência doméstica após rompimento da barragem 

cartilha “Mulheres em defesa da vida além do atingimento”, publicada pelo Nacab em 2022, reúne relatos de atingidas que já denunciavam, na prática, o aumento da violência após o rompimento da barragem. “Aumentou a violência doméstica. O pessoal que mora mais próximo do rio, acaba que ficou mais prejudicado com o acontecimento. Não trabalha, nem cuida da horta, fica desesperado e desconta a raiva em quem tá do lado […] aumentaram as discussões e problemas”, relata uma atingida de Esmeraldas. 

“Aumentou muito a violência também, as discussões em casa. Tomo remédio quando ele começa a gritar comigo”, afirma uma atingida de Caetanópolis. 

Estudo feito pelo Nacab e parceiros em 2021 por meio de entrevistas e oficinas com mulheres atingidas da Região 3, apontou associação direta entre o rompimento da barragem e o aumento da violência doméstica nos territórios atingidos. As atingidas relataram que o empobrecimento e o endividamento das famílias, combinados com o aumento do consumo de álcool e drogas ilícitas pelos parceiros, agravam a violência. Esse cenário ocorre em um contexto de vulnerabilização e perda de autonomia, decorrentes da perda de renda, do aumento da sobrecarga de trabalho doméstico e do isolamento social provocado.

Após assinatura do termo, espera continua 

O anúncio dos R$ 36 milhões para os CREAMs chega cinco anos e quatro meses depois do Acordo de Reparação de Brumadinho, marcando um primeiro avanço concreto após longa espera das mulheres atingidas. Mas a demora na implementação e as diversas mudanças na estrutura revelam que, na prática, o combate à violência contra as mulheres segue secundário na reparação.  

As mulheres da Região 3 já denunciavam em 2021 e 2022 o aumento da violência doméstica como impacto direto do rompimento. Agora, com os termos de compromisso dos CREAMs assinados, o desafio é garantir que os recursos não se transformem apenas em uma resposta formal às obrigações do acordo, sem efeitos concretos na realidade de quem aguarda há tanto tempo por soluções que reduzam a violência e ampliem o acesso a direitos.

Texto: Ariane Silva
Foto: Marcos Oliveira

Edição: Fabiano Azevedo
Publicação: Ester Louback