Paraopeba

Intercâmbio Agroecológico reúne comunidades da Região 3 para desenhar projetos de quintais produtivos

Encontro promove troca de experiências entre comunidades atingidas e fortalece a construção coletiva de propostas para produção de alimentos, geração de renda e segurança alimentar

O Assentamento Roseli Nunes, em Pequi, recebeu no dia 11/07 o Intercâmbio Agroecológico: Quintais Produtivos, realizado pela ATI Paraopeba Nacab no âmbito do Anexo 1.1 do Acordo de Reparação. O encontro reuniu 85 pessoas atingidas dos dez municípios da Região 3 da Bacia do Paraopeba, além de equipe técnica e convidados.

Mais do que uma troca de experiências, o intercâmbio teve como objetivo apoiar as comunidades na elaboração das propostas de projetos de quintais produtivos que vêm sendo discutidas na etapa de priorização de projetos da Primeira Onda do Anexo 1.1. Dos dez municípios da Região 3, nove priorizaram projetos de quintais produtivos nesta etapa, como uma das iniciativas prioritárias para enfrentar danos relacionados à geração de renda, alimentação, modos de vida e fortalecimento comunitário. As comunidades agora avançam no detalhamento desses projetos, definindo objetivos, metas, indicadores, resultados esperados e itens necessários para sua implementação.

Ao longo do dia, agricultoras e agricultores compartilharam experiências, desafios e aprendizados relacionados a diferentes iniciativas produtivas já desenvolvidas em seus territórios. Divididos em grupos temáticos, os participantes debateram temas como galinhas caipiras, sistemas agroflorestais (SAFs), apicultura, piscicultura e tecnologias sociais de captação e manejo da água, buscando identificar quais elementos podem contribuir para a construção dos projetos que serão executados nas comunidades atingidas.

A atividade também dialoga com seminários e encontros anteriores, quando representantes das comunidades apontaram os quintais produtivos como uma das propostas com maior potencial de integração regional. A diversidade de atividades desenvolvidas nos quintais foi identificada como uma vocação presente em diferentes territórios da Região 3.

Encerrando o encontro, foi realizada uma troca de mudas e sementes, reafirmando um dos objetivos do intercâmbio: fortalecer a cooperação entre comunidades e valorizar os conhecimentos construídos nos territórios atingidos.

Participantes do intercâmbio visitam o quintal de Abiail Oliveira
Foto: Ariane Silva / Nacab

Galinhas caipiras: produção, renda e cuidado diário

Um dos grupos visitou a propriedade de Abiaiul Oliveira, reconhecida no Assentamento pela criação de aves: galinhas de diferentes raças, perus, patos e outras espécies.

Durante a visita, os participantes trocaram experiências sobre alimentação, manejo, comercialização e os desafios enfrentados pelos criadores, como a manutenção da qualidade da água, os custos de alimentação e estratégias para ampliar a produção.

Para Abiaiul, a criação vai muito além da geração de renda: “Primeiro, para mexer com galinha tem que ter muito amor e dedicação. Todos os dias eu vou lá ver se minhas meninas estão bem, se os perus estão precisando de alguma coisa. A lida é diária e eu faço isso com muito carinho. Já tenho meus fregueses para os ovos e continuo aprendendo formas de melhorar a produção”, contou.

Sistemas Agroflorestais fortalecem renda e diversificação

O grupo de Sistemas Agroflorestais (SAFs) contou com a participação da Cooperativa de Trabalho da Agricultura Camponesa de Minas Gerais (Coopertrac), que apresentou sua experiência no desenvolvimento de um projeto de implantação de SAF em quintais produtivos implantado junto às famílias do assentamento.

Foto: Ariane Silva / Nacab

Os participantes visitaram a propriedade de Eliana Ferreira, no Assentamento, onde conheceram o sistema produtivo e discutiram estratégias para ampliar a diversidade da produção.

Segundo Eliana, a combinação entre horta, árvores frutíferas e outras culturas tem contribuído para ampliar a produção e fortalecer a comercialização: “Aqui a gente tem um SAF implantado com as famílias do assentamento. Do nosso quintal sai alimento para o PAA, para o PNAE e para a feira de Pequi. Esses intercâmbios são muito importantes porque fazem a gente aprender e agregar mais valor à produção. Nosso foco é melhorar a renda e aumentar a diversidade de alimentos que produzimos e comercializamos”, explicou.

Piscicultura e produção integrada

No grupo de piscicultura, as discussões se concentraram nas possibilidades de criação de peixes em quintais produtivos e na integração dessa atividade com outras formas de produção.

Grupo de piscicultura troca experiências sobre formas de calcular o espaço necessário para a quantidade de peixes planejada
Foto: Ariane Silva / Nacab

Idelmárcio Moreira, do Quilombo da Pontinha, em Paraopeba, compartilhou experiências sobre sistemas integrados de produção, destacando como os resíduos da criação podem ser aproveitados na agricultura. “As fezes dos peixes podem servir como adubo para a horta, enquanto as plantas ajudam na qualidade da água. É um sistema em que tudo se aproveita. Quando a água fica muito ácida, por exemplo, existem formas simples de corrigir e melhorar a oxigenação”, explicou.

A troca permitiu que participantes interessados em implantar projetos semelhantes conhecessem soluções práticas e adaptadas à realidade das propriedades familiares.

Água, energia e convivência com o território

Outro grupo discutiu tecnologias sociais voltadas ao acesso à água e à produção sustentável. Os participantes conheceram experiências já utilizadas no Assentamento, como minipoços e alternativas para armazenamento e uso eficiente da água.

As conversas reforçaram a importância da gestão hídrica para garantir a viabilidade dos quintais produtivos, especialmente diante das dificuldades de acessar água enfrentadas por diversas comunidades rurais da Região 3.

Apicultura e organização coletiva

A atividade sobre apicultura contou com apoio da Cooperativa OCA, parceira do Nacab, que conduziu uma roda de conversa sobre manejo, produção de mel e organização coletiva.

foto: PH Reinaux / Nacab

“A gente já tem alguma experiência com as abelhas, mas sempre aprende mais quando troca conhecimento com outras pessoas. Receber esse encontro aqui no assentamento é muito importante porque fortalece nossa comunidade e valoriza aquilo que a gente produz”, afirmou Geraldo Sobrinho, do Assentamento Roseli Nunes.

Comunidades aprofundam propostas para a etapa-piloto

Troca de mudas e sementes no Intercâmbio
Foto: Ariane Silva / Nacab

Ao final do encontro, os grupos apresentaram uma sistematização dos debates realizados ao longo do dia. O trabalho teve como foco o detalhamento dos projetos de quintais produtivos, incluindo objetivos específicos, metas, formas de comprovação dos resultados, atividades previstas, indicadores e itens necessários para execução das iniciativas.

Girleia Sousa, presidenta da Associação dos Agricultores de Boa Vista, em Maravilhas, destacou que o encontro ajudou a pensar novas possibilidades para projetos construídos pela comunidade: “Nossa associação trabalha com várias frentes: hortas, frutas, galinhas e quitandas. Cada grupo contribui de uma forma. Participar desse intercâmbio ajuda a conhecer experiências que podem servir para nossa realidade e pensar projetos que atendam às necessidades da comunidade”, disse.

Mais do que conhecer experiências bem-sucedidas, o intercâmbio permitiu que as comunidades aprofundassem o desenho dos projetos que pretendem desenvolver na etapa-piloto do Anexo 1.1, buscando construir iniciativas capazes de fortalecer a produção, gerar renda, ampliar a segurança alimentar e contribuir para a qualidade de vida das famílias no campo.

Texto: PH Reinaux e Ariane Silva
Edição: Fabiano Azevedo
Foto de abertura: Alí Nacif / MST MG