No dia 28 de julho, na comunidade de São José do Jassém, em Alvorada de Minas, a mineradora Anglo American se reuniu com as comunidades da Zona de Autossalvamento (ZAS) da barragem de rejeitos, para dar um parecer sobre o som emitido em seu sistema de alerta no dia 12 de fevereiro de 2026. O ocorrido causou pânico e desespero aos moradores que residem abaixo da barragem, que ao ouvirem o som nas sirenes imaginaram ser uma situação real de emergência.
Além de moradores, na reunião estavam presentes o assessor da Promotoria de Justiça de Conceição do Mato Dentro, Guilherme Jacob, representantes da Defesa Civil de Alvorada de Minas e de Conceição do Mato Dentro e técnicos da ATI 39 Nacab. A mineradora iniciou com um pedido de desculpas à comunidade: “Pedimos desculpas pelo ocorrido e reconhecemos que o episódio feriu preocupação e dúvidas na comunidade. Reafirmamos nosso compromisso e a transparência, estabelecendo aqui um espaço de diálogo e esclarecimento de dúvidas”.
Representantes da Anglo American lembraram que no dia 25 de fevereiro fizeram reunião com a comunidade para apurar os fatos e anunciar que estavam investigando o que tinha acontecido com o sistema da sirene. De acordo com a mineradora, foram realizados testes em laboratório e não encontraram a causa. Também foram realizados testes nas sirenes nos dias 3 e 20 de março e monitoramentos para verificar o que estava interferindo o sistema. A explicação e conclusão pelos técnicos foi que aconteceu uma interferência de rádio e o som emitido pelas sirenes foi parecido com o som de internet discada.

Alessandra Araújo, técnica da Anglo American, explicou que: “As sirenes operam em frequência, igual as de rádio. Um dos rádios operados em campo estava na mesma frequência que a sirene. As interferências distorcem os sinais e foi emitido pelas sirenes um ‘bip’, similar ao barulho de internet discada.”
Foi explicado também que as sirenes de emergência têm quatro gravações de voz padronizadas. Em caso de acidente, são acionadas e emitidas alguma dessas mensagens. Segundo a análise da mineradora, no dia 12 não foi emitida nenhuma mensagem de voz, mas sim um ruído de rádio.
A mineradora também citou os motivos dos dois acionamentos indevidos das sirenes em anos anteriores. Ela informou que o primeiro, ocorrido em janeiro de 2020 nas comunidades da ZAS, foi devido à uma descarga eletromagnética; o segundo, ocorrido em março de 2025, no Sapo, foi por falha humana; e esse mais recente, de fevereiro de 2026, na ZAS, foi por uma interferência sonora de rádio, através de uma empresa terceirizada que operava em uma rede clandestina, sob uma frequência não homologada pela ANATEL. A Anglo American informou que essa sua terceirizada já foi notificada e punida.
Moradores manifestam insegurança
Depois de ouvir as explicações, alguns moradores manifestaram dizendo que estão sentindo insegurança em relação às sirenes, ao Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração(PAEBM) e às rotas de fuga, por morarem na ZAS e por não ser a primeira vez que as sirenes foram acionadas ou emitiram sons indevidamente.
“De qualquer forma isso foi uma falha que veio da sirene da Anglo American. Para nós não é só um ruído, a sirene de Saraiva também acionou. Se é uma falha que aconteceu de interferência de rádio, pode acontecer de novo. O que a Anglo tem para nos garantir que não vai acontecer novamente?” Ivanilde Pacífica, moradora de São José do Jassém
“Eu entendi, mas tranquilo ninguém fica e nem vai ficar, porque estamos debaixo de uma barragem. Como confiar na Anglo? Dá medo mesmo. Isso é uma tragédia que eu nunca pensava acontecer na minha vida. Aqui somos uma comunidade tradicional, somos quilombolas. E não é a primeira vez que a sirene toca por acidente. Poderíamos não ter esse problema”. João Pimenta, também de São José do Jassém
“Foi tanta gente que adoeceu, quase que perde até criança… Para que ter essa sirene, pois ela deveria acionar só na hora que estamos em risco. A sirene pra nós ela não é de confiança, se ela é dominada até por um relâmpago, não dá para confiar que a sirene é salva-vidas da gente. Salva-vidas da gente é só Deus.” Dona Dacília Pires, quilombola de Passa Sete
A Anglo American respondeu que a tratativa dada para que essa interferência não aconteça mais foi a desabilitação da função de viva voz do rádio da sirene. “Foi desabilitado a função de voz, para que sons não saiam mais. Agora que foi desligado essa função, isso não será possível mais acontecer”, afirmou Alessandra Araújo, técnica da Anglo American.
Reparação
Ao ser questionada a respeito de indenização ou reparação pelos danos sofridos no dia do ocorrido, a Anglo American informou que está disposta a dialogar com o Ministério Público, em momento específico, para resolver esse assunto. E orientou que as pessoas atingidas encaminhem as demandas de solicitação de reparação ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
Guilherme Jacob, representando o MPMG, disse aos moradores que desde o ocorrido estão investigando os fatos junto com a Promotoria do Serro. O assessor enfatizou que os atingidos podem confiar no trabalho da ATI 39 para assessorá-los e reforçou que podem encaminhar as demandas ao MP. Ele informou o número do whatsapp para envio de mensagens à Promotoria de Conceição do Mato Dentro, de segunda à sexta-feira das 12h às 18h: (31) 983436754.
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Moradores de Córrego do Saraiva (localidade de São José do Jassém) direcionaram-se ao “ponto de encontro”, após ouvirem som nas sirenes de emergência da barragem de rejeitos, no dia 12/03/26
Reportagem, áudio e edição de áudio: Georgyanne Sena
Edição: Brígida Alvim
Comunicação ATI 39 Nacab