ATI 39 | MÉDIO ESPINHAÇO

Garimpando histórias do quilombo Taporôco

Mesmo enfrentando o isolamento social e os desafios decorrentes do avanço da mineração, os moradores da comunidade quilombola Taporôco mantêm viva sua memória e sua identidade cultural

A comunidade quilombola Taporôco (Alvorada de Minas) é formada por relações de parentesco e tem sua história ligada ao trabalho na terra, à criação de animais, garimpo de aluvião e outros saberes transmitidos entre gerações. Os moradores contam que a comunidade possui ancestralidade negra, sendo alguns deles descendentes de pessoas que foram escravizadas, e que também há presença cigana na região.

Conceição Simões Pimenta (Dona Sussuca), 71 anos, conta que o nome da comunidade seria originado de um antigo morador: “Diz meu pai que morava um senhor aqui que chamava Emanuel Taporôco, mas eu não conheço. Pra te mostrar uma realidade, aqui na minha casa, antigamente, era uma fazenda, que meu pai não lembra dela. Então, quando nós viemos pra cá, era uma terra muito estercada. No meu terreno tem vários esteios antigos e uma escada de pedras. Pela quantidade de esteio parece que era uma fazenda grande. Então, quem já morou aqui deve que tinha muito dinheiro.”  

Eva Expedito Pimenta, de 83 anos, e Neuza Simões Pimenta, 63 anos, mãe e filha, foram moradoras de Taporôco. Dona Neuza mudou-se para Água Santa e de lá foi reassentada, há 16 anos, para Itapanhoacanga. Depois Dona Eva foi viver com a filha, há cerca de 10 anos. Elas contam que em Taporôco plantavam de tudo e depois que se mudaram não conseguem mais plantar seus alimentos, reduzindo a prática ao cultivo da horta. “Até hoje gosto de plantar alho no dia 3 de maio. Todo mundo falava que era bom porque não tinha lua. Eu ajudava minha mãe e acabei aprendendo. A horta a gente semeava em fevereiro e março para, no mês de maio, estar tudo pegadinho. A gente mudava os pezinhos e adubava com esterco de vaca queimado. Até hoje eu adubo com esterco de vaca”, lembra Neusa.   

Os partos e as benzeções eram feitos por mulheres, como Sebastiana dos Santos Pimenta e Amélia Ducelino Pimenta (Miluca), avó e tia de Dona Sussuca. O garimpo também fez parte da vida de muitas famílias da comunidade. 

Tia Miluca, avó de Dona Darcília, é que benzia nós. Ela e o marido dela. Uma vez meu pai foi comer uma língua de boi, um pedaço forte e grande, e parou aqui (na garganta). Aí ela veio aqui benzer pai com tição de fogo,” relata Dona Sussuca. 

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Esteio em madeira

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Casa atual da Dona Sussuca feita de pau-a-pique

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Escada de pedra

“Tirei ouro com meu marido. Nós cavacava a beirada do barranco, colocava a bateia, entrava dentro d´água e fica fazendo assim e jogando a água e caindo. E ficava aqueles trenzinhos, aquelas raizinhas de ouro. Aí a gente apurava ele, colocava pra secar no sol, depois a gente pesava ele e vendia”, lembra Dona Neusa, ao lado da mãe.

Tradições mantidas 

Ainda hoje na comunidade são comuns práticas tradicionais como trocas de alimentos e de dias de serviço, assim como o uso de carros de boi e burros para transportar lenha, cana e outras cargas. Também são mantidas criações de animais como éguas, jumentos, porcos, vacas e galinhas, assim como o cultivo de hortaliças, feijão, café, mandioca, cana e alho. Do leite das vacas são feitos queijos e a mandioca transformada em farinha, em processo artesanal que envolve ralar, prensar e torrar.  

Nos cuidados com a saúde, plantas medicinais são usadas para o preparo de chás e remédios caseiros. Dentre elas hortelã, poejo e alfavaca, muitas vezes preparadas com mel. Algumas casas ainda preservam construções tradicionais de pau-a-pique e adobe.  

“Minha mãe tinha uma casa antiga que foi o Zé de Zurico que construiu. A casa era de pau-a-pique, que amarrava uma taquara na outra e jogava barro. Quando essa casa caiu, eu já era casada e meu marido que era pedreiro construiu aquela casa que tá lá, que é de adobe”, conta Dona Neuza.





Mudanças e desafios 

Com o avanço das operações minerárias, muitas famílias saíram de Taporôco. Algumas comunidades vizinhas deixaram de existir, para a instalação da mina e da barragem de rejeitos, como Água Santa/Mumbuca. Com isso, foram reduzidas as relações de amizade e de parentesco, assim como os espaços de convivência e o acesso a serviços públicos. Hoje, poucas famílias permanecem em Taporôco, enfrentando isolamento social e dificuldades para manter seus modos de vida. Ainda assim, seguem resistindo e preservando memórias e costumes que fazem parte da identidade do lugar.  

Em 2024, a ATI 39 Nacab desenvolveu estudo sobre a desintegração social em Taporôco, entre outros impactos/danos causados pelo Sistema Minas-Rio, da Anglo American. Foi feito também o diagrama familiar da comunidade, com as relações de parentesco dos “Simões”, “Pimenta” e “Rodrigues”, através do Mapeamento Comunitário Participativo.

Atualmente, as principais demandas da comunidade são: redução dos impactos/danos socioambientais da mineração; melhoria das estradas; poços artesianos; transporte público; acesso à saúde e atendimento a idosos; cestas básicas; instalação de fossas sépticas, redes de comunicação (telefone e internet) e placas solares.  

Desde o ano passado, a comunidade passou a participar do Programa de Convivência da Anglo American, tendo reuniões para discutir problemas e soluções com a mineradora. Também foram feitos diálogos com o poder público. Nessas reuniões, já houve alguns encaminhamentos. A Prefeitura de Alvorada de Minas passou a disponibilizar transporte para a comunidade acessar o comércio e serviços de saúde. Porém, essa medida já foi suspensa. Para instalação de fossas sépticas, ficou encaminhado de a Anglo American articular com a Prefeitura para viabilizar as perfurações em Taporôco. A mineradora se comprometeu em disponibilizar mão de obra para instalar a fossa modelo e treinamento prático da instalação. Também informou que, caso o município não cumpra sua parte, ela buscará outra solução.

Garimpo de aluvião: Extração de minerais preciosos, como ouro e diamante, que se acumulam em camadas de areia e cascalho nos leitos ou margens dos rios. Costuma-se usar bateia, recipiente de madeira em forma de prato, para fazer a separação dos materiais.  

Esteio: Pilar vertical de madeira, pedra ou outro material resistente, para suporte estrutural de uma construção.

Pau-a-pique: Construção feita com madeira entrelaçada (taquaras, bambus) preenchida com barro e capim, ou esterco, para dar liga.

Adobe: Tijolo de barro cru moldado e seco ao sol, usado para levantar paredes firmes e regulares.

Tição de fogo: Pedaço de madeira em brasa, ainda aceso.

Apurar: No contexto do garimpo, significa separar o ouro que era encontrado na bateia.

Reportagem: Janaíne Ferraz 
Edição: Brígida Alvim 
Publicação: Patrícia Castanheira 
Comunicação ATI 39 Nacab