“Não há futuro sem presente.” Assim Genivaldo da Silva Alexandre, morador de Simão Lavrinha, resume os últimos anos da comunidade, marcados por esforços voltados para geração de renda. Reassentados de comunidades atingidas pelas operações da Anglo American, a partir de 2020, os moradores têm o desafio de obter capital para reestruturar a vida na terra.
“Toda renda que consigo fazer acabo usando para comprar gado, formar capineira, pagar horas de máquina. Tudo isso é caro e se qualquer coisa sair do planejado o prejuízo é grande e fica difícil ter o capital para investir de novo”
Genivaldo da Silva, morador de Simão Lavrinha
Vizinhos concordam: “Vai montar um curral é um absurdo!”, diz Renato Paulo dos Santos (Du). “Só para fazer silagem para o gado e comprar a lona gastei mais de 2 mil reais”, conta Luciano Teixeira Simões (Nem).
Juntar dinheiro para investir é tarefa difícil em Simão Lavrinha. O reassentamento fica em Congonhas do Norte, município que não recebe compensações financeiras pela atividade minerária e não se planejou para oferecer estrutura e serviços públicos às famílias reassentadas. Genivaldo conta que já fizeram reuniões com a Prefeitura, junto da ATI, em busca de melhorias. “Aqui não chegam os agentes de saúde. O município não tem recurso e não foi preparado para nos receber”, descreve.
Robson dos Santos, irmão de Renato, acrescenta: “Aqui não tem emprego. Os jovens precisam sair as 5h da manhã para trabalhar em Conceição.” Segundo os moradores, quem fica na comunidade têm pouca chance de prestar serviços. “No Beco, eu tinha trabalho fixo numa fazenda, mas aqui não tem muitos serviços desse tipo. Enviei currículo para as obras que houve aqui, mas foram selecionadas pessoas de fora”, conta Genivaldo.
Dificuldades e busca de soluções
Desde 2021 tentando desenvolver a produção na nova propriedade, Genivaldo notou maiores dificuldades e prejuízos na criação de gado. Ele conta sobre um problema nas pastagens de Simão Lavrinha que afeta os animais: o solo da antiga fazenda é ácido e nascem samambaias no meio da braquiária. Os moradores acreditam que isso pode ser uma das causas para que as vacas urinem sangue e produzam menos leite. Também relatam que, comparado com as comunidades de onde saíram, Simão Lavrinha é mais frio e a adaptação dos animais deu bastante trabalho.
As incertezas da criação de gado levaram Genivaldo a buscar alternativa. Ele e a esposa, Jaqueline, decidiram produzir e vender farinha de mandioca. “Sempre temos pedidos. Sai tudo muito rápido!”, conta o casal.
Alguns conseguiram manter a atividade. A produção e venda de queijos é o carro-chefe de Renato. A entrega de leite no tanque da Associação dos Alves, que vende a produção local para uma cooperativa, tem garantido a renda de Luciano.

A Associação Comunitária dos Agricultores Familiares de Simão Lavrinha (Aafsol) é outra aposta da comunidade. A Anglo American estimulou os moradores e moradoras a criarem a associação, para captar recursos por meio de projetos e obterem as melhorias. A Aafsol foi fundada há 2 anos e tem sede em área de 3 hectares, cedida em comodato (empréstimo temporário) pela mineradora.
Gerir a associação, no entanto, trouxe novos desafios, como levantar recursos para manter a regularização de documentos e registros em cartório, trâmites bancários e escrita de projetos. O presidente, Denilson Sanches (Bode), revela: “Como a associação não tem fundos, gasolina e gastos saem do próprio bolso. A Aafsol só não afundou esse ano por causa da sede onde estamos plantando.”
Apesar dos desafios, a empreitada deu certo! Quatro moradores se juntaram para plantar feijão na área da Aafsol e comemoram a colheita de 32 sacos, num total de 1600 quilos. “Com o dinheiro apurado na venda do feijão, dá pra comprar 2 bezerros”, calcula Renato.
Também plantaram milho para silagem. O sonho agora é ampliar a área de plantio coletivo, a partir da cessão de novas áreas pela Anglo American. “Com os bons resultados que tivemos, acho que outras famílias ficarão animadas a participar!”, estima Genivaldo.

Reestruturação Produtiva
Uma das obrigações da Anglo American, como parte das exigências do licenciamento ambiental, é apoiar o reestabelecimento das atividades econômicas das famílias atingidas e reassentadas. Por meio do Programa de Reestruturação Produtiva, com duração de 36 meses, a mineradora se comprometeu a dar apoio intensivo às famílias realocadas, por meio de assistência técnica e social, extensão rural e priorização da contratação de mão de obra local. O acompanhamento visava garantir o nível de produção econômica existente antes do reassentamento. Porém, na avaliação de moradores, as ações do Programa foram limitadas.
“O que a Anglo deu foram mudas, sementes, adubo e horas de máquina para preparação de solo. O que está trazendo sustento pra gente hoje nós fizemos por conta própria, tirando dinheiro do próprio bolso”, diz Genivaldo.
Moradores relatam que a atividade pecuária exige capital que a maioria não tem e que seria necessário apoio da mineradora para estruturar essa atividade produtiva. “No caso da bovinocultura, não houve ações de capacitação. Insisti muito para termos um curso sobre vacinas e saúde animal, como o controle de brucelose, mas não foi feito”, avalia Denilson Sanches.
Os avanços conquistados pela comunidade evidenciam a capacidade de organização das famílias. Por outro lado, reforçam a necessidade de avaliar se as ações previstas foram suficientes para restabelecer as condições de produção, renda e autonomia existentes antes do reassentamento.
“A reestruturação produtiva deve considerar as características ambientais, econômicas e sociais do novo território, garantindo assistência técnica continuada para adaptação dos sistemas produtivos. Especialmente na pecuária, onde os moradores relatam dificuldades relacionadas às pastagens, à alimentação do rebanho, à sanidade animal e aos elevados custos de produção”
Túlio Moreira, analista em Ciências Agrárias da ATI 39 Nacab

“É uma demanda das comunidades rever e avaliar o Programa, mesmo após o encerramento, já que algumas lideranças consideram que as ações foram insuficientes para atender aos objetivos propostos”, conclui Guilherme Bongiovani, coordenador técnico da ATI 39 Nacab.