Atendendo à determinação das Instituições de Justiça, a Auditoria Técnica e Ambiental Independente, AECOM, produziu relatórios para as Instituições de Justiça compromitentes do Acordo Judicial de Reparação (Ministério Público de Minas Gerais, Ministério Público Federal e Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais). Nos documentos, a auditoria aponta que o sistema de contenção a jusante — as chamadas Malhas Dinâmicas e a Barreira Hidráulica Filtrante 2 (BH-2) — vem operando com volume útil abaixo do necessário para reter integralmente o material em um eventual cenário de ruptura do anfiteatro da antiga barragem B-I, e que a auditoria mantém recomendações de segurança ainda não atendidas.
Importante: a auditoria esclarece que os relatórios não indicam que um novo rompimento esteja em curso ou seja iminente. O que apontam é um conjunto de pendências de segurança ainda não resolvidas — rejeitos não removidos, contenção a recompor e monitoramento a normalizar — que precisam ser enfrentadas antes do período chuvoso, quando os riscos aumentam
A AECOM salienta que permanece no chamado “anfiteatro” da barragem B-1 — a cavidade em forma de arco deixada pelo rompimento — uma massa de rejeitos ainda não removida. Para fins de gestão de segurança, a Vale trabalha com um cenário de mobilização potencial da ordem de 435 mil m³; os estudos de ruptura hipotética avaliam volumes ainda maiores (Nota Técnica AECOM nº 0068-2026, p. 7 e 10). Conforme informa a auditoria, o volume de 49.572 m³ mencionado pelo Nacab, na reportagem veiculada em 04/09/2026, corresponde à capacidade das estruturas de contenção, não ao volume de rejeitos do anfiteatro.
Suscetibilidade à liquefação
No relatório apresentado em junho, a AECOM apontou que parte dos rejeitos remanescentes na B-I é “potencialmente suscetível à liquefação” — uma característica do material que precisa ser considerada nas análises de estabilidade e nas futuras obras de escavação. A auditoria registra que essa suscetibilidade não significa que o processo esteja ocorrendo atualmente, mas que é uma condicionante a ser tratada com rigor no projeto de remoção. No mesmo relatório, a auditoria informou não haver garantia de ausência de rupturas durante as obras futuras que serão executadas no local (Relatório AECOM nº 89, p. 47).
As obras de remoção desse rejeito foram reprogramadas para 2027. Com isso, o cronograma de 2026 ficou restrito a serviços preliminares de apoio e montagem de canteiro (Relatório AECOM nº 91, p. 24).
Situação da BH-2
Caso haja nova ruptura ou deslizamento, o material que permanece na estrutura deveria ser interceptado pelo conjunto formado pela BH-2 e pelas “malhas dinâmicas”. Esse conjunto de estruturas foi projetado para um volume útil total de 49.572,04 m³ — valor que corresponde à capacidade das barreiras (Malhas Dinâmicas 02 e 03 e BH-2), e não ao volume de rejeitos represado no anfiteatro (Nota Técnica AECOM nº 0068-2026, Tabela 3, p. 10).
No início do período seco de 2026, o reservatório da BH-2 encontrava-se assoreado acima de sua capacidade, que é de 5.730,86 m³: o levantamento de 24/04/2026 registrou 9.019,95 m³ de material acumulado, condição que levou ao vertimento e ao carreamento de sólidos para jusante (Relatório AECOM nº 89, p. 131).
Insuficiência do sistema de contenção
A auditoria aponta que a Vale concluiu em junho de 2026 o desassoreamento do reservatório, devolvendo à BH-2 um volume útil de 4.736,88 m³ (Relatório AECOM nº 91, p. 133). Ainda assim, a AECOM alerta: “o volume atualmente disponível no conjunto formado pela BH-2 e pelas Malhas Dinâmicas ainda não é suficiente para conter integralmente o volume estimado para um eventual cenário de ruptura” (Relatório AECOM nº 91, p. 144). A auditoria ressalta que essas estruturas funcionam como uma camada adicional de mitigação que intercepta parte do material, e que a recomposição dos seus volumes, por limpeza e desassoreamento, segue pendente.
Durante o primeiro semestre de 2026, cerca de 60% dos prismas de monitoramento, refletores ópticos medem movimentações e deslocamentos na superfície, ficaram sem leitura (Relatório AECOM nº 89, p. 41). Os prismas funcionam conjuntamente a uma Estação Total Robótica (ETR), sendo necessária uma linha de visão livre de obstáculos até o prisma, mas ela foi obstruída pelo crescimento da vegetação no período chuvoso. O sistema inclui ainda radares e outros equipamentos de monitoramento, que seguiram operando. A Vale realizou a manutenção e, no relatório mais recente, a maior parte das leituras já havia sido retomada (Relatório AECOM nº 91, p. 45).
Recomendação de medidas adicionais e cronograma de limpeza
A auditoria recomendou à Vale avaliar medidas de segurança adicionais na região logo a jusante da BH-2, considerando a possibilidade de a onda de rejeitos ultrapassar a estrutura em um eventual cenário de mobilização — recomendação de natureza preventiva, que a auditoria mantém enquanto a recomposição dos volumes não for comprovada (Recomendação AECOM ID 5314; Nota Técnica nº 0068-2026, p. 11).
As Malhas Dinâmicas 02 e 03 seguem com limpeza pendente, com conclusão prevista para setembro/outubro de 2026 — às vésperas do período chuvoso de 2026/2027, quando a recomposição dos volumes é considerada importante pela auditoria (Relatório AECOM nº 91, p. 144).
Vertimento na CEP-1
Uma estrutura chamada “Cortina de Estacas-Prancha 1” (CEP-1) apresenta vertimento, sendo que a auditoria não indica nova contaminação contínua do rio Paraopeba. A AECOM aponta que “tal ocorrência está associada à redução da vazão de bombeamento” na ETAF-1 e já pediu à Vale providências para reduzi-lo (Relatório AECOM nº 91, p. 139). A avaliação da qualidade da água do rio é feita por programas de monitoramento específicos, que seguem em curso.
Cabe ressaltar que os relatórios da AECOM não indicam rompimento em curso ou iminente, porém reforçam que as pendências de segurança relatadas permanecem válidas e em acompanhamento pela auditoria.
Texto: Jurídico Nacab
Edição: Fabiano Azevedo
Imagem: Google Maps
Publicação: Marcos Oliveira