ATI 39 | MÉDIO ESPINHAÇO

Reunião entre comunidades atingidas e Anglo American termina sem consenso  

No 4º encontro realizado para discussão das reivindicações do Manifesto das comunidades atingidas pelo Sistema Minas-Rio, incluindo quilombolas, alguns pontos foram debatidos, mas sem consenso ao final

Na noite de 24/09/26, as comunidades atingidas se reuniram com a Anglo American para mais uma rodada de discussão sobre as reivindicações do Manifesto de Paralisação da Rodovia MG-010, entregue pelas comunidades durante a manifestação do dia 18/08/26. Este foi o 4º encontro de discussão do Manifesto, realizado na comunidade do Sapo, com participação de aproximadamente 100 pessoas atingidas (presencialmente e online) e representantes da Anglo American.  

A reunião foi acompanhada pelo promotor de justiça de Conceição do Mato Dentro, Leonardo Teixeira; o secretário de Assistência Social de Alvorada de Minas, Alysson Simões; o coordenador nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Luiz Paulo Siqueira; profissionais da ATI 39 Nacab e da Fundação Israel Pinheiro (FIP). Perguntas, respostas e sugestões de encaminhamentos foram dadas.

Pessoas atingidas cobram da Anglo American o atendimento às suas reinvindicações, listadas em 26 pontos do Manifesto de Paralização da Rodovia MG-010

A discussão, no entanto, foi marcada por discordâncias entre atingidos e a mineradora ao passar pelas seguintes reivindicações:  

1 – “Atendimento Psicossocial Comunitário Independente: Garantia imediata de assistência à saúde mental continuada, prestada por equipes multidisciplinares independentes e sem vínculos com a mineradora, voltada ao tratamento dos traumas e estresse pós-traumático causados pelos acionamentos de sirenes e pelas pressões decorrentes do processo de realocação.”  

A mineradora e o secretário de assistência social de Alvorada de Minas alegaram que já existe um convênio para manter uma equipe psicossocial atuante no município, incluindo visitas e atendimentos nas comunidades da zona de autossalvamento (ZAS), no caso da equipe de Alvorada de Minas. “Convênios são incrementos desses serviços, em razão dos impactos”, resumiu o representante da empresa. Do outro lado, moradores explicaram que precisam de algo além do que é oferecido pelos convênios firmados entre a Anglo American e as prefeituras de Alvorada de Minas e Conceição do Mato Dentro para fortalecer os serviços de saúde mental nos municípios.  

“O que a gente quer é um grupo técnico com psicólogo, psiquiatra, assistente social e motorista para trabalhar em loco em todas as comunidades atingidas, de porta em porta e com dinâmicas coletivas, com produção de relatórios apresentados às comunidades”.

Fagner Júnior, morador da comunidade quilombola São José do Arrudas. 

“O convênio entre a  Anglo American  e  a  Prefeitura  de Alvorada de Minas  foi formalizado anteriormente  aos  acionamentos  da sirenes. Portanto, não  prevê  uma  equipe  técnica suficiente   para  atender  as  demandas por  tratamentos  psicossociais  dos  atingidos da ZAS. Entendemos que se  faz  necessária  a  formalização de   novo  Convênio  entre  a   Anglo  American e  a  Prefeitura  de  Alvorada  de  Minas, para  atender  as  demandas  das   comunidades  atingidas  por  tratamentos psicossociais com atendimento ¨in loco¨, ou seja de  porta a  porta  das  residências  dos  atingidos”.

Raimundo Nonato, da comunidade quilombola São José do Arrudas

Foi encaminhado o agendamento de reuniões entre a mineradora e as prefeituras de Congonhas do Norte, Dom Joaquim, Conceição do Mato Dentro e Alvorada  de  Minas, para tratarem sobre a implantação dos serviços nas comunidades. A empresa propôs apresentar uma devolutiva dessas conversas até o dia 23/10/26. Também ficou encaminhada a realização de reuniões das comunidades com as prefeituras, em paralelo, para detalharem a demanda.  

2 – “Custeio integral de tratamentos e medicamentos: Custeio integral pela mineradora de medicamentos, terapias e insumos médicos não contemplados pela rede pública do SUS, sempre que o adoecimento psíquico ou físico decorrer direta ou indiretamente dos impactos do empreendimento e da angústia do processo de negociação”.  

Neste ponto, uma médica da mineradora argumentou que a empresa não tem aparo legal para comprar e fornecer medicamentos e que precisa respeitar as regras do SUS. Um advogado popular ligado ao MAM, em participação online, informou que a “dispensação de medicamentos”, que seria a entrega direta de medicamentos à população, realmente é proibida, por ser função do SUS. Mas existem outras formas de fazer medicamentos não disponíveis no sistema chegarem a quem precisa, por meio de doações às secretarias de saúde ou a organizações não governamentais credenciadas ao SUS. O encaminhamento foi as comunidades estudarem e apresentarem possíveis parcerias para receberem a doação e viabilizarem a entrega dos medicamentos.  

3 – “Custeio de estudo independente: realizado por entidade indicada pelos atingidos e metodologia por eles aprovada, para averiguação da incidência de doenças respiratórias, cardiovasculares, neurológicas e psicológicas nas comunidades afetadas.”  

Neste ponto, a mineradora questionou os objetivos do estudo e depois respondeu que não custeará. Diante da clara negativa da mineradora, tanto de custear medicamentos quanto estudos de saúde das pessoas atingidas, algumas pessoas se emocionaram novamente e compartilharam experiências de adoecimentos psíquicos e agravamentos de problemas de saúde que, segundo elas, têm intensificado desde a ocorrência de toques de sirenes de emergências (foram 4, entre 2020, 2025 e 2026) e o início da negociação para reassentamento.  

Uma moradora da comunidade quilombola de São José do Jassém relatou que está acometida por problemas de saúde mental, consequentes dos impactos/danos causados pelo Minas-Rio e o processo de reassentamento. Ela disse que há mais de um mês aguarda por atendimento psicológico, sem previsão de agendamento da consulta. 

Carla Santos, também moradora de Jassém, expôs que sofre de adoecimento mental e perdeu o emprego por falta de condições psíquicas. Ela contou que está em tratamento com psiquiatra, mas não consegue arcar com a compra de medicamentos receitados e não disponíveis no SUS, por ser um custo muito alto para ela que conta com um salário-mínimo de renda familiar. 

“Eu tive que largar o meu emprego, em que eu cuidava de uma criança de 2 anos de idade, porque após o acionamento da sirene, de fevereiro, eu passei a ter crises de ansiedade constantemente e crises muito fortes. Tive que contar com ajuda dos meus familiares para manter meu tratamento. Mas, devido ao aumento dos medicamentos, por causa do aumento dos problemas de saúde, eu não estou tendo como arcar com esses medicamentos, infelizmente”.

Carla Santos, moradora da comunidade quilombola São José do Jassém.

“As comunidades atingidas, dentre elas diversas comunidades quilombolas, aclamaram pela necessidade urgente desse estudo independente sobre a incidência de doenças diversas provocadas pelo Minas-Rio”, reforça Raimundo Nonato. 

4 – “Desistência de todas as ações judiciais já impetradas e atualmente em curso contra pessoas atingidas, por participarem de manifestações e paralisações da MG-10 em função dos impactos provocados pelas atividades da mineradora.” 

Uma das reivindicações do Manifesto é que as pessoas atingidas não sejam punidas por reivindicarem seus direitos em forma de protestos e manifestações. Questionada se a empresa desistiria das duas ações que mantém contra pessoas atingidas, a representante do jurídico da Anglo American informou que a mineradora não desistirá de uma das ações judiciais impetrada contra pessoas atingidas em 2020, sem esclarecer os motivos, e alegou desconhecer a outra, contra atingidos da comunidade de Gondó. Nesse momento, Valter Pimenta, um dos atingidos alvo dessa ação, se apresentou como quilombola da Comunidade Água Santa que foi reassentado pela mineradora em Gondó, e contou à ela que ele e outros moradores se tornaram réus em uma ação judicial proposta pela Anglo American, por questionarem a utilização pela mineradora de estradas que passavam em frente suas casas, ocasionando impactos de poeira, ruído e riscos no trânsito das pessoas. Na ação, a empresa alegou que os moradores estariam impedindo-a de realizar seu trabalho. O gerente jurídico da ATI, Jesus Menjivar, forneceu o número da ação do Gondó para a advogada da Anglo. 

Ao final da reunião, durante a conferência e validação dos encaminhamentos, o clima ficou ainda mais tenso. Algumas pessoas atingidas permaneceram até meia-noite para tentar garantir encaminhamentos resolutivos para suas demandas, mas devido à falta de consenso acabaram desistindo e saindo da sala. Segundo elas, o motivo foi que representantes da mineradora e do poder público quiseram alterar o que havia sido definido em relação ao item que trata do Atendimento Psicossocial Comunitário Independente. A reunião foi encerrada sem consenso entre as partes.  

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Reportagem e fotos: Brígida Alvim 
Comunicação ATI 39 Nacab