Teia Agroeológica de Mulheres

Mulheres do Teia Agroecológica se articulam para a continuidade das atividades dos grupos 

Projeto encerra a atuação na Região 3 e deixa legado de autonomia e autogestão para os grupos de mulheres

“Nós demos o primeiro passo e vocês deram o empurrão”, sintetizou Ângela Rezende, do grupo de mulheres Flores do Campo, durante a última roda do projeto Teia Agroecológica de Mulheres: autonomia e autogestão na bacia do Paraopeba. O momento de balanço aconteceu no sexto – e último – intercâmbio do projeto, no dia 28 de setembro, na sede da Confraria da Horta, em Florestal (MG).  

Em alusão à caminhada pela mata que cerca o galpão onde aconteceram as atividades, Ângela disse que o grupo caminhou junto, como uma rede, mas “cada qual no seu tempo, né?”. Para ela, a teia precisa sonhar e continuar, “com a cara, com a coragem, porque há momentos que vai precisar. Mas a gente precisa continuar e tentar melhorar um pouquinho mais a cada dia”, concluiu.  

O intercâmbio teve como propósito encerrar um ciclo e celebrar o início de outro, em que os grupos de mulheres farão a autogestão dos processos mobilização, produção, comercialização e divulgação dos produtos. Durante dez meses de reuniões, oficinas, assessorias e intercâmbios, muitos temas pertinentes ao desenvolvimento da identidade e autonomia dos grupos foram trabalhados. As oficinas das Cadernetas Agroecológicas, de comercialização e precificação, de saboaria, de cozinha profissional e de estratégias de comunicação deram fundamentos para que os grupos pudessem alavancar sua auto-organização.  

O Grupo de Mulheres de Três Barras (Fortuna de Minas), assim como os outros três grupos, apresentou suas propostas de agenda de ações para 2027 às demais companheiras 

“Quero agradecer o crescimento que a gente teve nesse período com vocês. Porque todo mundo que está aqui, está fazendo muito bem. Porque a gente sempre fez, mas vocês apontaram um caminho, vocês fizeram a gente entender como funciona, qual o melhor jeito de fazer, qual o melhor jeito de vender, vocês acabam incentivando a gente a ter autonomia e independência”, pontuou Patrícia do Carmo Batista, vereadora do município de Pequi e membra do grupo Sabores com Fé, da comunidade de Soledade.  

Durante a manhã, os quatro grupos acompanhados pelo projeto – Cachoeirinha, Muquém, Três Barras e Soledade – se reuniram para propor ações locais e territoriais até agosto de 2027 para que a teia continue articulada. Com apoio da ATI Paraopeba, a previsão é que as mobilizadoras de cada grupo zelem pela agenda coletiva apresentada durante o intercâmbio. “Vocês fizeram uma região que era tão distante, ficar tão próxima”, afirmou Rosilene Gomes, mobilizadora do grupo de mulheres de Três Barras. 

No final da manhã as mulheres conheceram a experiência da Confraria da Horta, em um bate papo com Carolina Zarattini e Daniel Novaes, gestores do espaço. A roda de conversa foi um momento de compartilhamento de ideias entre os grupos e o casal, que há mais de dez anos vivem da terra. Hoje articulam uma Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), um sistema de comercialização dos produtos dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) da propriedade e de parceiros vizinhos. O casal recebe grupos de visitação para compartilharem sobre a CSA, agroecologia, educação ambiental e experiências ritualísticas com a natureza. 

Entrega dos materiais do projeto e celebração 

O último encontro do Teia Agroecológica de Mulheres também foi marcado pelo momento de entrega dos materiais produzidos coletivamente pelos grupos e pela equipe técnica de campo. Em um kit, cada mulher recebeu o livro “Receitas em teia: o saber fazer das mulheres do Paraopeba”, uma cópia da carta política produzida no 5º intercâmbio, as fotos dos grupos durante os encontros do projeto e a Caderneta de Autogestão, que sistematiza o processo de formação com cada grupo e orienta a auto-organização para a produção e venda. Cada grupo também recebeu um banner com o manifesto construído por elas nas oficinas de estratégias de comunicação.  

O grupo Flores do Campo, de Muquém (Pará de Minas), com o banner entregue pelo projeto

Foi nas oficinas de comunicação, conduzidas por Marcelo Podestá com apoio da analista de comunicação do projeto, Nathália Iwasawa, que foi construído o livro de receitas que simboliza os saberes das mulheres desta rede. O material apresenta quatro receitas, uma de cada grupo, mais um bônus de xarope de beterraba. É possível baixar o PDF aqui.  

A Caderneta de Autogestão foi sistematizada por Sol (Fabiana Schulz), que coordenou os trabalhos de grande parte das oficinas e assessorias de acesso a mercado, juntamente com a equipe técnica do Teia. O material entrega, em texto e imagens, o percurso que cada grupo fez. Sol explica que “vai servir como um manual para que as mulheres possam consultar o passo a passo de gestão, organização e desenvolvimento do grupo e preparo dos produtos”. Os conteúdos foram agrupados em quatro grandes temas: gestão financeira, organização do coletivo, processo de preparo das receitas e identidade visual. 

“Com você ando melhor” 

“Só a gente sabe que tem esse cuidado, essa delicadeza de olhar para a outra na trilha. Não sei se vocês perceberam, mas a gente olha uma para a outra, dá a mão, vê se está precisando, vê se está tudo bem. A gente não está só”, lembrou Sol na roda de encerramento do Teia, que, assim como Ângela, remeteu à caminhada conduzida por Carolina Zarattini e Daniel Novaes. 

O percurso foi feito em silêncio a convite dos anfitriões para que todas pudessem perceber melhor o ambiente em que estavam entrando. Foi um momento importante para confirmar que, à sombra de uma mata, todas se sentem melhor, que uma precisa da outra para atravessar os desafios e que a convivência com o Cerrado precisa acontecer com cuidado e sabedoria.  

Carolina conduziu um momento de conexão entre as pessoas presentes, de mãos dadas e olho no olho

Ao final do dia, a equipe do Teia Agroecológica de Mulheres distribui mudas de plantas medicinais para todas. Entre alecrins, tomilhos e hortelãs, ficou a tarefa de continuar semeando desejos coletivos, articulações e ações territoriais para que a rede continue fortalecida. Como lembrou Rosilene Gomes, “isso aqui foi só um início, não é o fim. Hoje só termina um ciclo, mas tem muito por vir ainda, muito mesmo!”. 

Maria Antônia, a Chica, de Soledade (Pequi) e Ângela Rezende, de Muquém (Pará de Minas) com as mudas que escolherem levar para casa 

“Companheira me ajude 

Que eu não posso andar só 

Eu sozinha ando bem 

Mas com você ando melhor” 

Texto: Nathália Iwasawa  
Edição: Fabiano Azevedo e Júnia Lousada  
Fotos: Nathália Iwasawa