Paraopeba

Estudos sobre saúde e meio ambiente seguem em curso na Bacia do Paraopeba

Enquanto a Vale busca encerrar medidas emergenciais, pesquisas ainda investigam riscos relacionados ao rompimento e devem orientar ações de reparação nos territórios atingidos

Enquanto a Vale tenta encerrar programas como o Novo Auxílio Emergencial (NAE) e dificultar o atendimento relacionado as medidas emergenciais, como fornecimento de água e alimentação animal nos territórios atingidos, pesquisas sobre a saúde das pessoas, o meio ambiente e a segurança dos alimentos continuam em curso, ainda que em etapas iniciais ao longo da bacia do rio Paraopeba.

A Bacia do Paraopeba já passou por vários estudos desde que aconteceu o desastre-crime, em 2019 – como esse estudo sobre a qualidade das águas de consumo, feito em 2021. Mas as conclusões e a reparação aos problemas são sempre insuficientes

O rompimento da barragem B-I e o soterramento das barragens B-IV e B-IVA da Mina Córrego do Feijão continua a exigir respostas científicas e ações de longo prazo para a reparação socioambiental. Para entender a real dimensão dos riscos e garantir segurança às pessoas atingidas, os Estudos de Avaliação de Risco à Saúde Humana e Risco Ecológico (ERSHRE) são desenvolvidos ao longo de 29 municípios da Bacia do rio Paraopeba e da represa de Três Marias.

Os ERSHRE buscam identificar os riscos potenciais à saúde humana e ao meio ambiente devido à possível presença de substâncias químicas provenientes do rejeito no solo, na água, no ar e nos animais e, a partir dessa identificação, definir estratégias para lidar com esses riscos. Isso significa que os estudos buscam identificar 1) se as pessoas estão expostas a contaminantes e os efeitos dessa exposição para a saúde humana; 2) como estão a saúde e o equilíbrio da fauna (animais) e da flora (plantas) da bacia. A partir disso, os estudos definirão ações como reabilitação, remediação, monitoramento ambiental e acompanhamento da saúde pública. Para isso, os ERSHRE são desenvolvidos em cinco fases complementares.

O que já foi feito e o que falta fazer?

Na Fase 1, iniciada pelo Grupo EPA em 2019, foram levantados dados já publicados sobre a região e realizadas reuniões de escuta para mapear as principais preocupações das comunidades atingidas em relação aos potenciais riscos à saúde e ao meio ambiente. A ERM assumiu os estudos em agosto de 2025. Atualmente, estão sendo realizadas reuniões para apresentar a nova empresa responsável pelos estudos às lideranças e representantes das pessoas atingidas, além de relatar o estágio atual dos estudos e as próximas atividades previstas.

Paralelamente, estão sendo revisados os relatórios da Fase 1 e elaborados Planos de Investigação de Campo, que definem de forma rigorosa pontos essenciais das coletas, como os locais, a quantidade necessária de amostras, os métodos de coleta e quais substâncias serão analisadas. Em Brumadinho, já estão sendo apresentados os resultados da Fase 1 às comunidades, por meio de reuniões de devolutivas, e coletadas amostras para a Fase 2.

De acordo com o cronograma da ERM, as devolutivas da Fase 1 na Região 3 devem ser realizadas entre janeiro e julho de 2027. A empresa tem destacado que, além de apresentar o resultado da Fase 1, as devolutivas abordarão as metodologias utilizadas e as coletas da fase seguinte. Na Fase 2, serão coletadas amostras de solo, água e poeira, avaliados impactos sobre animais aquáticos e terrestres e analisados alimentos consumidos. Após as análises laboratoriais, serão caracterizadas as rotas de exposição, processados e calculados os riscos (Fase 3). Nas duas últimas fases dos ERSHRE, será desenhado e implementado um Plano de Gestão para intervir sobre os riscos, tratando o ambiente e acompanhando a saúde da população.

Comer e beber em segurança: a criação do Estudo da Produção Agropecuária e do Pescado

Os ERSHRE olham para a água, o solo, o ar, as plantas e os animais, mas faltava responder uma pergunta fundamental para o dia a dia das pessoas atingidas: a comida produzida na região (incluindo o peixe pescado no rio) é segura para ser consumida e vendida?

Essa pergunta surgiu como demanda das próprias comunidades e produtores atingidos e, para respondê-la, foi criado o Estudo da Produção Agropecuária e do Pescado na Bacia do Rio Paraopeba, que está sendo executado por pesquisadores do Núcleo Rogério Valle de Produção Sustentável (SAGE) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (COPPE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Reparação integral ainda segue distante

Enquanto os estudos ainda não apresentam respostas concretas que possam garantir a segurança da população, a Vale tenta encerrar sua responsabilidade de arcar com o Novo Auxílio Emergencial (NAE), entre outras obrigações. Contudo, a entrada de uma nova empresa nos estudos de risco e o surgimento de um novo estudo sobre os alimentos demonstram que, independentemente do que a Justiça decida acerca da continuidade do NAE, o processo de reparação está longe de ser concluído. Esse cenário reforça a necessidade do Novo Auxílio Emergencial e a continuidade de medidas como o fornecimento de água, a distribuição de alimentação animal e a manutenção dos cercamentos.

Lair de Farias é produtor de leite da comunidade de Cachoeirinha, em São José da Varginha, cria gado às margens do Paraopeba e utilizava a água do rio para saciar a sede dos animais. Apesar de sua propriedade estar às margens do rio, Lair relata que teve o fornecimento de insumos interrompido pela Vale. O Programa de Abastecimento Emergencial (PAE), elaborado pela mineradora, prevê critérios restritivos para o fornecimento de água, alimentação animal e cercamento de áreas lindeiras ao rio Paraopeba, incluindo situações de restrição ao uso do rio. Mesmo assim, segundo o produtor, seu atendimento foi interrompido pelo canal telefônico da empresa. “Ela parou de me entregar. Antes, eu estava recebendo dezessete sacos”, relata Lair, que afirma ter ficado dois anos com a margem do rio cercada. O produtor também compara seu caso ao de vizinhos que continuam recebendo ração, água e silagem.

Quando a Vale veio aqui, cercou a margem do rio de todos os meus vizinhos também. Eles estão recebendo ração, água e silagem, mas o meu foi cortado. No fim, eu quem fico no prejuízo

Lair de Farias, Cachoeirinha, São José da Varginha

A situação vivenciada por Lair ilustra a diminuição de medidas emergenciais que deveriam prosseguir, dada a continuidade dos danos e prejuízos. Além disso, é importante compreender os riscos a que Lair e os animais podem estar submetidos devido à ausência de dados concretos e ao estágio atual dos ERSHRE e do Estudo da Produção Agropecuária e do Pescado.

A previsão da ERM é concluir a Fase 4 dos ERSHRE em agosto de 2030, quando os estudos serão incorporados ao Processo de Reparação, por meio do Anexo 2.1 – Recuperação Socioambiental, do Acordo Judicial de Reparação Integral. Assim, somente em 2030, ou seja, 11 anos depois do rompimento, as pessoas e comunidades atingidas saberão se existe risco à saúde e ao meio ambiente decorrente do contato com substâncias químicas relacionadas ao rompimento das barragens da Vale.

O rio Paraopeba segue impróprio para uso, mais de sete anos após o rompimento

Tentar finalizar programas que garantem condições mínimas de sobrevivência às pessoas atingidas antes dos resultados desses estudos é ignorar riscos e danos ainda  nem mesmo identificados.

Texto: Graziely Lima e Gerência de Reparação
Edição: Fabiano Azevedo e PH Reinaux
Fotos: Hérksson Maia e Marcio Martins