O fantasma de um novo desastre com rejeitos de mineração continua a preocupar a região de Brumadinho (MG). Relatórios de Auditoria Técnica e Ambiental Independente (AECOM) produzidos para o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Ministério Público Federal (MPF) e Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPEMG) apontam que o sistema de contenção a jusante — as chamadas Malhas Dinâmicas e a Barreira Hidráulica Filtrante 2 (BH-2) — vem operando com volume útil abaixo do necessário para reter integralmente o material em um eventual cenário de ruptura do anfiteatro da antiga barragem B-I, e que a auditoria mantém recomendações de segurança ainda não atendidas.
É importante esclarecer: os relatórios não indicam que um novo rompimento esteja em curso ou seja iminente. O que apontam é um conjunto de pendências de segurança ainda não resolvidas — rejeitos não removidos, contenção a recompor e monitoramento a normalizar — que precisam ser enfrentadas antes do período chuvoso, quando os riscos aumentam
A barragem B-I colapsou originalmente em 25/01/2019, desencadeando uma das maiores tragédias humanitárias e ambientais do país e interrompendo 272 vidas. No entanto, mesmo após mais de sete anos, permanece no chamado “anfiteatro” da estrutura — a cavidade em forma de arco deixada pelo rompimento — uma massa de rejeitos ainda não removida. Para fins de gestão de segurança, a Vale trabalha com um cenário de mobilização potencial da ordem de 435 mil m³; os estudos de ruptura hipotética avaliam volumes ainda maiores (Nota Técnica AECOM nº 0068-2026, p. 7 e 10).
Relatório aponta o perigo
No relatório apresentado em junho, a AECOM apontou que parte dos rejeitos remanescentes na B-I é “potencialmente suscetível à liquefação” — uma característica do material que precisa ser considerada nas análises de estabilidade e nas futuras obras de escavação. A auditoria registra que essa suscetibilidade não significa que o processo esteja ocorrendo atualmente, mas que é uma condicionante a ser tratada com rigor no projeto de remoção. No mesmo relatório, a auditoria informou não haver garantia de ausência de rupturas durante as obras futuras que serão executadas no local (Relatório AECOM nº 89, p. 47).
Embora a retirada definitiva desses rejeitos seja urgente, as obras de remoção foram reprogramadas para 2027. O atraso decorre da demora na obtenção do licenciamento ambiental. Com isso, o cronograma de 2026 ficou restrito a serviços preliminares de apoio e montagem de canteiro (Relatório AECOM nº 91, p. 24).
Caso haja nova ruptura ou deslizamento dos rejeitos que permanecem na estrutura, o material deveria ser interceptado pelo conjunto formado pela BH-2 e pelas “malhas dinâmicas”. Esse conjunto de estruturas foi projetado para um volume útil total de 49.572,04 m³ — valor que corresponde à capacidade das barreiras (Malha Dinâmica 02, Malha Dinâmica 03 e BH-2), e não ao volume de rejeitos represado no anfiteatro (Nota Técnica AECOM nº 0068-2026, Tabela 3, p. 10).

Imagem do Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026, p.133
A situação da BH-2 chegou ao ponto mais crítico no início do período seco de 2026. O reservatório encontrava-se assoreado acima de sua capacidade: o levantamento de 24 de abril de 2026 registrou 9.019,95 m³ de material acumulado para uma capacidade de projeto de 5.730,86 m³, condição que levou ao vertimento e ao carreamento de sólidos para jusante (Relatório AECOM nº 89, p. 131).

Imagem do Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026 da AECOM, p.30
A auditoria aponta que a Vale realizou o desassoreamento do reservatório, concluído em junho de 2026, devolvendo à BH-2 um volume útil de 4.736,88 m³ (Relatório AECOM nº 91, p. 133). Ainda assim, em seu último relatório, a AECOM alertou: “o volume atualmente disponível no conjunto formado pela BH-2 e pelas Malhas Dinâmicas ainda não é suficiente para conter integralmente o volume estimado para um eventual cenário de ruptura” (Relatório AECOM nº 91, p. 144). A auditoria ressalta que essas estruturas funcionam como uma camada adicional de mitigação — que intercepta parte do material ao longo do vale — e que a recomposição dos seus volumes, por limpeza e desassoreamento, segue pendente.
De acordo com o relatório mais recente da auditoria, publicado em 20 de agosto no portal virtual da auditoria socioambiental[5], ainda não foram concluídas “as ações preparatórias para o período chuvoso de 2026/2027”, nem comprovada a “capacidade dos sistemas de drenagem e contenção” dos rejeitos que permanecem na estrutura.
Durante o primeiro semestre de 2026, cerca de 60% dos prismas de monitoramento de deslocamento superficial ficaram sem leitura, por obstrução das linhas de visada pela vegetação (Relatório AECOM nº 89, p. 41). O sistema de acompanhamento inclui ainda radares, piezômetros e monitoramento microssísmico, que seguiram operando. A Vale realizou a manutenção e, no relatório mais recente, a maior parte das leituras já havia sido retomada, permanecendo um instrumento obstruído (Relatório AECOM nº 91, p. 45).
A auditoria recomendou à Vale avaliar medidas de segurança adicionais na região logo a jusante da BH-2, considerando a possibilidade de a onda de rejeitos ultrapassar a estrutura em um eventual cenário de mobilização — recomendação de natureza preventiva, que a auditoria mantém enquanto a recomposição dos volumes não for comprovada (Recomendação AECOM ID 5314; Nota Técnica nº 0068-2026, p. 11).
As Malhas Dinâmicas 02 e 03 seguem com limpeza pendente, com conclusão prevista para setembro/outubro de 2026 — às vésperas do período chuvoso de 2026/2027, quando a recomposição dos volumes é considerada importante pela auditoria (Relatório AECOM nº 91, p. 144).
Vertimento na CEP-1
Uma estrutura chamada “Cortina de Estacas-Prancha 1” (CEP-1) apresenta vertimento, com potencial de carreamento de sólidos para o rio Paraopeba. A AECOM aponta que “tal ocorrência está associada à redução da vazão de bombeamento” na ETAF-1 e já pediu à Vale providências para reduzi-lo (Relatório AECOM nº 91, p. 139). A avaliação da qualidade da água do rio é feita por programas de monitoramento específicos, que seguem em curso.

Imagem proveniente do Relatório da AECOM 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026, p.139
Durante a inspeção técnica mensal, foi observado vertimento pela estrutura. Tal ocorrência está associada à redução da vazão de bombeamento na ETAF-1. A auditoria permanece ressaltando a necessidade da Vale estabelecer, com a maior brevidade possível, alternativas para minimizar o vertimento pela estrutura e, consequentemente, reduzir o carreamento de sólidos para o rio Paraopeba.

Imagem proveniente do Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0089-2026, p.124
Os relatórios da auditoria socioambiental apresentam uma sequência de pendências de segurança que permanecem sem solução sete anos após o rompimento: rejeitos ainda no anfiteatro, contenção a recompor e monitoramento a normalizar. Enquanto isso, a mineradora segue obtendo lucros milionários, ampliando suas operações e divulgando publicidade sobre compromisso com a sustentabilidade.
Nota da redação (16/09/2026): esta matéria foi atualizada para precisar a natureza dos apontamentos da auditoria. Os relatórios da AECOM não indicam rompimento em curso ou iminente; o valor de 49.572,04 m³ corresponde à capacidade das estruturas de contenção, não ao volume de rejeitos do anfiteatro. As pendências de segurança relatadas permanecem válidas e em acompanhamento pela auditoria.
Texto: Jurídico Nacab
Edição: Fabiano Azevedo
Imagem: Google Maps
Publicação e locução: Marcos Oliveira