O fantasma de um novo desastre com rejeitos de mineração continua a ameaçar a região de Brumadinho (MG). Relatórios de Auditoria Técnica e Ambiental Independente (AECOM)[1] produzidos para o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Ministério Público Federal (MPF) e Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPEMG) revelam que as estruturas de segurança operadas pela Vale são incapazes de conter a lama em caso de um eventual colapso no anfiteatro da antiga barragem B-I.
A barragem B-I colapsou originalmente em 25/01/2019, desencadeando uma das maiores tragédias humanitárias e ambientais do país e interrompendo 272 vidas. No entanto, mesmo após mais de sete anos, um volume estimado de 49.572,04 m³ de rejeitos remanescentes ainda se encontra depositado no chamado “anfiteatro” da estrutura, assim chamado por causa de seu formato: uma cavidade em forma de arco.
Relatório aponta o perigo
No relatório apresentado em junho[2], a AECOM apontou que os rejeitos remanescentes na barragem B-I estariam “potencialmente suscetíveis à liquefação”[3], ou seja, que o rejeito estaria instável e poderia se tornar líquido. Quando o rejeito se torna líquido (devido, por exemplo, à mistura do material com a água das chuvas), é quando passa a existir o maior risco de colapso das estruturas. No relatório de junho, a auditoria informou, também, não haver garantia de que não haveria rupturas na estrutura durante as obras que estão sendo executadas no local.
Embora a retirada definitiva desses rejeitos seja urgente, as obras de remoção foram reprogramadas para 2027[4]. O atraso decorre da demora da Vale em obter o licenciamento ambiental necessário. Diante disso, o cronograma de 2026 ficou restrito a serviços preliminares de apoio e montagem de canteiro. Enquanto isso, a barragem que rompeu, causando um dos maiores desastres-crimes socioambientais da história, continua representando uma ameaça para a população e os ecossistemas que já foram vitimizados pela Vale, sete anos depois do rompimento.
Caso haja nova ruptura ou deslizamento dos rejeitos que permanecem na estrutura, este rejeito deveria ser contido pelo conjunto de estruturas formado pela Barreira Hidráulica Filtrante 2 (BH-2) e por “malhas dinâmicas”.

A situação da barreira BH-2 chegou ao nível mais crítico no início do período seco de 2026. Projetada para reter sedimentos, ela ficou completamente entupida de rejeitos, acumulando cerca de 9 mil m³ de lama para uma capacidade total de projeto de cerca de 5 mil m³. Com o reservatório superlotado, a barreira passou a vazar rejeitos para a região abaixo da estrutura.

A auditoria aponta que a Vale realizou a limpeza emergencial do reservatório em junho de 2026, devolvendo à BH-2 a capacidade de reter 4.736,88 m³ de rejeito. Porém, em seu último relatório, a AECOM alertou: “o volume atualmente disponível no conjunto formado pela BH-2 e pelas Malhas Dinâmicas ainda não é suficiente para conter integralmente o volume estimado para um eventual cenário de ruptura”, ou seja, a estrutura de contenção da Vale simplesmente não possui tamanho ou capacidade técnica para reter a lama.
De acordo com o relatório mais recente da auditoria, publicado em 20 de agosto no portal virtual da auditoria socioambiental[5], ainda não foram concluídas “as ações preparatórias para o período chuvoso de 2026/2027”, nem comprovada a “capacidade dos sistemas de drenagem e contenção” dos rejeitos que permanecem na estrutura.
Para agravar o cenário de risco, a auditoria apontou que, durante o primeiro semestre de 2026, cerca de 60% do sistema de monitoramento superficial do anfiteatro ficou sem leitura[6], devido ao crescimento descontrolado de vegetação que obstruiu a visibilidade dos aparelhos de monitoramento. Embora a Vale tenha feito a manutenção, recentemente, ainda resta um instrumento obstruído[7], e a demora na manutenção foi classificada como uma grave redução na confiabilidade do monitoramento de estabilidade do maciço.
Diante da evidente insuficiência física das barreiras, a auditoria técnica havia recomendado formalmente à mineradora que avaliasse e adotasse medidas de segurança adicionais de caráter emergencial na região localizada logo abaixo da BH-2. O objetivo era proteger vidas e mitigar os impactos, caso a onda de lama ultrapassasse os limites de contenção.
Apesar dos alertas contínuos, os relatórios oficiais registram que a Vale encerrou o período chuvoso e avançou pelo período seco de 2026 sem implantar as medidas de segurança adicionais recomendadas pela auditoria. Paralelamente, as Malhas Dinâmicas 2 e 3, estruturas fundamentais para reter o impacto inicial da lama, seguem parcialmente assoreadas, cujos cronogramas de limpeza se arrastam até outubro de 2026[8], época em que as chuvas já podem agravar as condições de segurança dessas estruturas.
Vazamento de rejeitos no Paraopeba
Como se não bastasse, uma estrutura chamada “Cortina de Estacas-Prancha 1” está vazando rejeitos sólidos no rio Paraopeba. A AECOM aponta que “tal ocorrência está associada à redução da vazão de bombeamento”, e já demandou que a Vale tome providências. A empresa, porém, ainda não resolveu o problema, e, conforme se entende do relatório da auditoria, a mineradora segue contaminando continuamente o rio atingido pelo rompimento.


Os relatórios da auditoria socioambiental apresentam uma sequência de situações inaceitáveis, indicando que a Vale não parece estar comprometida com a reparação do segundo desastre socioambiental que causou, já que não está cuidando nem de acabar com o risco que levou ao rompimento da barragem de Brumadinho, sete anos atrás. Enquanto isso, a mineradora segue obtendo lucros milionários, ampliando suas operações minerárias e divulgando publicidade de um suposto compromisso com a sustentabilidade.
Os relatórios da auditoria socioambiental apresentam uma sequência de situações inaceitáveis, indicando que a Vale não parece estar comprometida com a reparação do desastre socioambiental que causou em Brumadinho – o segundo envolvendo uma barragem sua em Minas Gerais. Sete anos após o rompimento, a mineradora ainda não eliminou sequer os riscos que originaram o desastre, apesar de seguir obtendo lucros milionários, ampliando suas operações minerárias e divulgando publicidade sobre um suposto compromisso com a sustentabilidade.
Notas de rodapé:
[1] Os relatórios citados aqui estão disponíveis no site https://portal.auditoriasocioambiental.com.br/documents, na seção “Documentos da Auditoria”, como instrumento jurídico “Segurança das Estruturas”. É necessário inserir o número do CPF e data de nascimento para ter acesso aos documentos.
[2] Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0089-2026, publicado em 22/06/2026.
[3] O relatório reconhece que setores do anfiteatro apresentam rejeitos potencialmente suscetíveis à liquefação e que a ausência de rupturas nas simulações numéricas da Fase 1 não constitui garantia de não ocorrência de eventos de instabilidade durante as obras, dadas as incertezas dos parâmetros e a heterogeneidade da região – Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0089-2026 , p.47
[4] Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026, p. 24.
[5] No site https://portal.auditoriasocioambiental.com.br/documents, o documento se encontra na seção “Documentos da Auditoria”, como instrumento jurídico “Segurança das Estruturas”, e foi publicado em 20/08/2026, denominado 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026.
[6] Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0089-2026, p. 41.
[7] Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026, p. 25.
[8] Relatório 60612553-ACM-DM-ZZ-RP-PM-0091-2026, p. 144.