Paraopeba

As marcas de uma triste recordação

Mesmo depois de três anos, enchentes ainda estão vivas na memória e nos temores das comunidades da Bacia do Paraopeba

Mesmo depois de três anos, enchentes ainda estão vivas na memória e nos temores das comunidades da Bacia do Paraopeba Joaquim Gomes Filho mora há 30 anos em Taquaras, no município de Esmeraldas, um dos mais atingidos pela enchente de janeiro de 2022 que assolou as comunidades às margens do rio Paraopeba.

A casa de Joaquim foi coberta pela enchente e quando a água baixou, ao ver o estado da moradia, ele entrou em desespero. “Pensei em vender, mas aqui tem o investimento de uma vida”, disse.

As enchentes de 2022 foram as mais fortes já presenciadas na região. Segundo o Instituto Mineiro de Gestão de Águas (IGAM), choveu em poucos dias 773 milímetros entre os municípios de Esmeraldas, Juatuba e Brumadinho – o maior volume registrado desde 1971.

O rio subiu velozmente, cobriu casas, destruiu plantações e matou criações. Após as águas baixarem, restaram as marcas da destruição: montanhas de lama misturada com o rejeito do rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, que estava no fundo do rio, tomaram conta das propriedades.

A paisagem de Taquaras nunca mais foi a mesma. O terreno, antes plano, agora é acidentado. E a terra já não é mais fértil. “A minha visão aqui era lindíssima! Eu avistava o rio e as árvores às margens”, diz Joaquim. “Agora eu vejo uma montanha de rejeito. Aqui a gente plantava frutas e colhia o ano inteiro. Mas agora elas não desenvolvem mais. O pé de [mexerica] poncã não produz. O caju dá flor, mas as frutas secam antes de amadurecer. E o quintal encheu de pé de mamona. É muito estranho”, destacou.

"Minha casa ficou escondida no meio do rejeito trazido pelo rio. Antes, vinha só areia nas enchentes, mas dessa vez veio essa lama que mais parece uma argila”
Joaquim Gomes Filho
morador de Taquaras, em Esmeraldas-MG

Logo após a estiagem, a Vale, em seu site, minimizou a questão do rejeito e tentou se eximir de responsabilidades, afirmando que contratou “empresas especializadas para avaliar eventuais efeitos causados pelos alagamentos”, concluindo que minério de ferro é classificado como “não perigoso e consequentemente não tóxico”.

Apesar disso, o IGAM, no “Caderno 6 anos – Ações de Recuperação realizadas em 2024”, divulgado em dez/2024 pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD), alerta para o risco de mais catástrofes: “Enquanto a remoção de rejeitos no Rio Paraopeba não é concluída e eventos climáticos extremos se tornam mais comuns, há risco de novas enchentes.”

Texto: Fabiano Azevedo e Marcio Martins
Foto: Marcio Martins