Da mina ao território: Aleida Azamar reflete sobre mineração, transição energética e defesa da vida

Em passagem pela Zona da Mata mineira, a economista e pesquisadora mexicana aponta os desafios de compreender a mineração para além da extração de minerais, colocando no centro do debate a justiça socioambiental

Uma terra não nasce quando a primeira máquina escava o chão. Antes da extração de minerais, existe um território vivo — tecido por pessoas, roças, rios, memória, expressões culturais e laços comunitários construídos ao longo de gerações. É a partir dessa perspectiva que a economista mexicana Aleida Azamar Alonso convida a sociedade a analisar o modelo extrativista na América Latina. 

Professora-pesquisadora do Departamento de Produção Econômica da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), no México, e integrante do Sistema Nacional de Pesquisadores, Aleida pesquisa sobre economia política, economia ecológica, mineração, energia, ecofeminismo e conflitos socioambientais. Sua inquietação intelectual, no entanto, começou bem antes das bancadas acadêmicas. 

Em sua passagem pela Zona da Mata mineira, no âmbito do curso sobre extrativismo mineral, a pesquisadora visitou a área minerada na comunidade rural de São Pedro, na divisa entre os municípios de Teixeiras e Pedra do Anta. A região convive com disputas territoriais locais: em 2025, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) determinou a suspensão das atividades da Zona da Mata Mineração por atuar sem licença ambiental válida e por infrações com intervenção em Área de Preservação Permanente (APP) e desvio de um curso d’água que abastecia os moradores.  

O Nacab entrevistou Aleida em sua passagem pelo Brasil. Leia as principais respostas a seguir.

Aula Inaugural da PPGgeo – Geopolítica Energética y Transición Global

Nacab: Gostaríamos de conhecer Aleida além dos diplomas e de sua trajetória acadêmica. Quem é Aleida Azamar Alonso, quais caminhos a trouxeram até aqui, quais lutas, ideias e compromissos guiam seu trabalho hoje? 

Aleida Azamar: Sou uma pessoa que, desde criança, sempre se preocupou em entender porque vivemos em sociedades com tantas desigualdades e porque, muitas vezes, essas desigualdades também se reproduzem em nossa relação com a natureza. Tive a sorte de ser criada e educada em uma família cheia de amor, mas também de consciência social e política. Além disso, acredito que minha formação como economista no México e na Espanha me levou a questionar profundamente a compreensão sobre os sistemas econômicos. 

Com o tempo, meu trabalho se aproximou cada vez mais dos territórios, dos conflitos socioambientais e das comunidades que enfrentam projetos extrativos, o que também contribuiu para transformar minha forma de entender a economia. Hoje, me interessa pensar em como construir alternativas que coloquem a vida, a justiça social e ambiental e a capacidade das comunidades de decidir sobre seus territórios no centro. 

O que te levou a pesquisar mineração, extrativismo e conflitos socioambientais? 

Meus pais me levavam para visitar áreas de mineração, então pude aprender sobre esses problemas socioambientais e trabalhistas. Além disso, a música de protesto e a literatura que ouvi marcaram em mim o interesse em contribuir para melhorar nossa forma de viver. 

Mística de ambientação da Disciplina e curso de Pós Graduação da PPGgeo – Extrativismo mineral, meio ambiente e sociedade

E, como profissional, comecei a me perguntar: de onde vêm os materiais que sustentam nossas vidas diárias e quem realmente paga os custos para obtê-los? Quando você começa a seguir o caminho dos minerais, energia ou matérias-primas, rapidamente surgem territórios transformados, conflitos sobre água, poluição, deslocamento e comunidades que questionam projetos apresentados como sinônimos de desenvolvimento. 

A mineração me permitiu observar essas contradições com muita clareza. É uma atividade fundamental para a economia contemporânea, mas seus benefícios e custos são distribuídos de forma profundamente desigual. A partir daí, passei a me interessar pela mineração como um modelo mais amplo, pois ele não se limita a uma atividade econômica, já que também envolve relações de poder, decisões políticas e formas específicas de apropriação do território. Eu estava especialmente interessada em ouvir e entender o que as comunidades estavam propondo diante desses processos.

“Quando você começa a seguir o caminho dos minerais, energia ou matérias-primas, rapidamente surgem territórios transformados, conflitos sobre água, poluição, deslocamento e comunidades que questionam projetos apresentados como sinônimos de desenvolvimento”. 

No seu trabalho há uma crítica importante ao modelo de desenvolvimento baseado na exploração dos recursos naturais, especialmente no contexto da transição energética. O que esse modelo produz nos territórios, além da extração dos próprios recursos? 

A extração nunca se limita à remoção de um mineral ou recurso do subsolo, já que todo o território é reorganizado em torno de um projeto extrativo. Os usos da água, do solo, das atividades produtivas, da infraestrutura e até das relações sociais dentro das comunidades mudam. No contexto da transição energética, isso é especialmente importante, pois estamos aumentando a demanda por minerais como lítio, cobre, cobalto, níquel ou terras raras. Se essa transição substituir apenas os combustíveis fósseis por mais extração de mineração, corremos o risco de reproduzir muitos dos mesmos problemas ambientais e sociais. Por isso, também precisamos nos perguntar quanto consumimos, para quê e sob quais condições. 

Qual é o papel das comunidades e dos movimentos sociais diante dos projetos extrativos? O que as experiências de resistência nos ensinam? 

As comunidades são aquelas que têm o conhecimento mais profundo dos territórios em disputa. Elas conhecem os ciclos da água, as formas de produção, as mudanças ambientais e a história social desses lugares. Esse conhecimento muitas vezes é deixado de fora dos estudos técnicos com os quais os projetos são justificados. 

Oficina de Cartografia Social com as comunidades das Zonas de Autossalvamento em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas, realizada em maio de 2024

As resistências também nos mostram que conflitos socioambientais não consistem simplesmente em ser “a favor” ou “contra” um projeto extrativo. O que está em jogo é quem decide o futuro de um território e qual ideia de bem-estar queremos construir. 

Algo que considero especialmente importante é que muitas comunidades não estão apenas resistindo. Elas também propõem outras formas de organizar a produção, gerenciar a água, conservar ecossistemas ou construir autonomia. Essas experiências nos forçam a ampliar nossa ideia de conhecimento e a reconhecer que alternativas não surgem exclusivamente de universidades ou governos. 

Por que é importante entender o território além de vê-lo como um espaço disponível para exploração econômica? 

Um território nunca é simplesmente uma área onde existem recursos. É um espaço historicamente construído pelas pessoas que o habitam. Existem relações familiares, formas de produção, memória, cultura, conhecimento, ecossistemas e formas particulares de se relacionar com a água, as florestas e a terra. 

Quando apenas o valor econômico de um mineral é observado de fora, todo o restante fica invisível. Um rio pode aparecer em um projeto como uma certa quantidade de água disponível, enquanto para uma comunidade pode ser, ao mesmo tempo, uma fonte de alimento, um espaço para a convivência, parte de sua história e uma condição para continuar vivendo ali. 

Romaria em Esmeraldas, em maio de 2026, destacou a importância do Rio Paraopeba

É por isso que conflitos extrativos também são conflitos territoriais. Compreender o território dessa forma nos permite perguntar não apenas quais recursos existem, mas quem decide sobre eles e com quais consequências.

Hoje há muita conversa sobre “mineração sustentável”. Quais contradições e quais precauções devemos tomar diante desse discurso? 

Existem tecnologias e práticas que podem reduzir alguns impactos da mineração, por isso é importante desenvolvê-las. O problema surge quando a ideia de “mineração sustentável” gera a impressão de que uma atividade extrativa pode ser realizada sem custos ambientais ou sociais significativos. 

Toda mineração transforma o território. Ela exige água, energia, infraestrutura e grandes movimentos de materiais. Por isso, a questão não pode se limitar a como extrair de forma mais eficiente, mas também a quanto precisamos extrair e para quê. 

A transição energética representa um exemplo: precisamos abandonar os combustíveis fósseis, mas não podemos assumir que substituir milhões de carros a gasolina por milhões de carros elétricos resolverá a crise ecológica por si só, isso exigiria enormes quantidades de minerais. Uma transição verdadeiramente justa também teria que transformar nossos padrões de consumo, mobilidade e produção, além de garantir direitos e participação efetiva nos territórios.

Durante sua visita a Teixeiras, no âmbito do curso de extrativismo mineral, quais elementos você pôde observar em diálogo com sua pesquisa e que podem nos ajudar a entender os conflitos territoriais na América Latina e, em particular, em nosso território da Zona da Mata? 

A visita a Teixeiras me permitiu observar que projetos extrativos não chegam em espaços vazios. Achei particularmente importante observar a proximidade entre áreas de interesse minerário, áreas agrícolas, corpos d’água e comunidades. Isso nos permite entender muito claramente que impactos não permanecem dentro dos limites administrativos de uma concessão. Quem terá acesso à água, quais atividades econômicas serão privilegiadas, quem recebe os benefícios e quem assume os riscos?

Cava de exploração na comunidade de São Pedro, em Teixeiras (MG)

A Zona da Mata também mostra porque é essencial estudar projetos antes que seus impactos sejam irreversíveis. Prevenção, informação e organização comunitária são parte central da defesa territorial. Esse território também nos mostra uma parte que está sempre presente nos processos de exploração e que geralmente não é contemplada pelas empresas de mineração e, em muitos casos, nem mesmo pelos governos: “as feridas sociais, simbólicas e humanas deixadas pela mineração”. 

“Prevenção, informação e organização comunitária são parte central da defesa territorial”. 

Qual papel a comunicação e a educação podem desempenhar na construção de territórios mais autônomos e capazes de resistir a projetos extrativos? 

Uma das primeiras disputas em torno de projetos extrativos ocorre justamente no campo da informação. As comunidades frequentemente recebem documentos muito técnicos, informações fragmentadas ou discursos que apresentam os projetos unicamente a partir de seus possíveis benefícios econômicos. 

A educação ambiental crítica permite que essas informações sejam traduzidas, relacionar à experiência diária do território e gerar questões coletivas. A comunicação popular, por outro lado, ajuda as próprias comunidades a contarem o que está acontecendo sob sua perspectiva. 

Isso fortalece muito a capacidade de tomada de decisões. Uma comunidade informada pode discutir estudos de impacto ambiental, identificar riscos, construir redes com outros territórios e participar muito mais ativamente das decisões. Além disso, esses processos permitem que o conhecimento local seja reconhecido e recuperado. Para mim, a autonomia territorial também começa com a capacidade de produzir o próprio conhecimento e usá-lo para imaginar e defender o futuro que uma comunidade deseja construir. 

Aleida ministrando aula no curso/disciplina: Extrativismo mineral, meio ambiente e sociedade, no Centro de Tecnologia Alternativas da Zona da Mata CTA-ZM

Para concluir, que mensagem você gostaria de deixar às comunidades, organizações, educadores e jovens que hoje defendem seus territórios contra o avanço do modelo extrativista? 

A primeira coisa seria reconhecer a enorme importância do trabalho que realizam nas comunidades. Defender um território não significa apenas proteger uma paisagem ou um bem natural. Significa defender as condições que tornam possível a vida presente e futura. 

Também acho importante lembrar que essas lutas não são isoladas. Muitas comunidades na América Latina enfrentam problemas muito semelhantes, como pressão sobre a água, expansão da mineração, grandes projetos energéticos, perda de terras ou degradação ambiental. Conhecer outras experiências nos permite aprender, acompanhar uns aos outros e construir redes.

“Defender um território não significa apenas proteger uma paisagem ou um bem natural. Significa defender as condições que tornam possível a vida presente e futura”. 

Eu diria especialmente aos jovens para fazerem perguntas e não aceitarem as formas atuais de desenvolvimento como inevitáveis. Economias e sociedades são construções humanas, portanto também podem ser transformadas. 

Defender territórios implica imaginar outros futuros possíveis. E nessa tarefa precisamos tanto de conhecimento científico quanto de experiência comunitária, educação, organização, solidariedade e uma participação muito mais ampla das novas gerações.

Texto: Carlos Fernando Ribeiro 

Edição: Nathália Iwasawa e Fabiano Azevedo 

Fotos: Carlos Fernandes Ribeiro e ATI 39 

Imagem de capa: Letícia Uematu