Teia Agroecológica de Mulheres

Em clima de celebração, Teia Agroecológica de Mulheres e ATI Paraopeba realizam intercâmbio na Região 3 

Encontro reuniu 40 mulheres na comunidade de Soledade e inaugurou o ciclo de oficinas e assessorias a mercado

No dia 21/03, a barraquinha da igreja de Soledade, no município de Pequi (MG), estava cheia de vida: o projeto Teia Agroecológica de Mulheres, em parceria com a ATI Paraopeba deram início a uma rodada de seis intercâmbios, cuja proposta é a troca ampliada de experiências entre os quatro grupos assessorados e mulheres representantes de outras comunidades da Região 3. 

Participaram cerca de 40 mulheres, de várias comunidades da bacia do Paraopeba: Cachoeirinha, no município de São José da Varginha, Muquém, de Pará de Minas, Soledade, de Pequi, Três Barras, de Fortuna de Minas, Rosas, de Florestal, Córrego das Pedras, Cachoeirinha, Taquaras e São José, de Esmeraldas, Taquara, de Papagaios, Quilombo da Pontinha, de Paraopeba, e Boa Vista, do município de Maravilhas. 

Mulheres de 12 comunidades da Região 3 se reuniram em Soledade para o 1° Intercâmbio do Teia Agroecológica de Mulheres / Foto: Marcos Oliveira

Para Lívia Mara, técnica de campo do projeto e responsável por mediar as metodologias do encontro, o primeiro intercâmbio foi bastante significativo. “Foi a primeira vez que os grupos de mulheres atingidas da Bacia se reuniram para apresentar um pouco da sua história, da sua auto-organização, das suas principais atividades, desafios e sonhos”, ela conta. Estes aspectos foram trabalhados na metodologia do “Rio da Vida”, na qual todos os grupos tiveram oportunidade de se apresentar e trocar as experiências vividas em suas comunidades.  

Também estiverem presentes no intercâmbio as coordenadoras Luiza Monteiro, Daiane Silva e Luiza Lino, dos escritórios do Nacab de Pará de Minas, Paraopeba e Esmeraldas, respectivamente. Elas destacaram a importância do acompanhamento da ATI Paraopeba para o fortalecimento dos processos participativos das mulheres em espaços de discussão e deliberação, além do valor dos quintais produtivos, responsáveis por fornecer alimentos saudáveis e de qualidade para as famílias do território, apontando para o enorme potencial produtivo da Região 3. 

Em paralelo às atividades, aconteceu a feira de produtos que os grupos levaram. Queijos, biscoitos, bolos, temperos, sabonetes e doces preencheram com cheiros e cores o espaço da barraquinha de Soledade. Lívia Mara destaca o sucesso: “as mulheres levaram muita coisa, eu nem consegui acompanhar, mas acho que isso já reflete muito o trabalho, traz muitas pistas boas e interessantes para a questão da comercialização em si, do projeto. Então, eu acho que a feira foi um sucesso. Foi muito boa mesmo!” 

A Feira Agroecológica ofertou grande variedade de produtos doo território / Foto: Marcos Oliveira

Oficina das Cadernetas Agroecológicas 

Na parte da tarde, foi iniciada rodada de oficinas das Cadernetas Agroecológicas, uma ferramenta política, metodológica e pedagógica que promove o processo de compreensão do trabalho doméstico das mulheres, principalmente no que diz respeito à divisão sexual do trabalho. O espaço foi conduzido pelas educadoras Marina Ribeiro e Crisângela Silva, integrantes do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana (AUÊ!) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  

A oficina das Cadernetas Agroecológicas terá, ainda, mais três encontros / Foto: Marcos Oliveira 

As Cadernetas são um instrumento potente para identificar o que é produzido no âmbito doméstico e que faz parte da economia da casa: nem sempre se trata do que é vendido, mas sobretudo do que se deixa de comprar pronto – quitandas, ovos, hortas e demais produtos dos quintais, que diariamente vêm do trabalho feminino. O projeto prevê mais dois encontros para trabalhar as Cadernetas: um para acolhimento de dúvidas e trocas e um terceiro para a devolutiva com as Cadernetas preenchidas.  

“Nesse sentido, a oficina da Caderneta Agroecológica realizada nesse primeiro intercâmbio constitui uma ferramenta estratégica para trabalhar o protagonismo das mulheres na produção, circulação e consumo de alimentos saudáveis a partir dos quintais produtivos”, destaca Junia Lousada, coordenadora do Teia Agroecológica de Mulheres. 

Visita técnica à Região 3 

O projeto conta com a colaboração de uma assessoria de gestão em agroecologia, realizada pelo engenheiro agrônomo Jorge Rabanal, com experiência em intercâmbios agroecológicos. Rabanal esteve presente neste primeiro encontro com os grupos.  

Visita no quintal da Íris, em Três Barras / Foto: Junia Lousada 

Foram realizadas, também, visitas a propriedades produtivas em Muquém e Três Barras, duas das quatro comunidades acompanhadas pelo projeto. A primeira visita foi na casa das irmãs Solange e Ângela dos Santos e de Maria de Fátima, membras do coletivo Flores do Campo, que produz sabonetes artesanais naturais, à base de óleos vegetais, óleos essenciais e insumos como a polpa de abóbora e babosa, provenientes dos quintais produtivos próprios e da região. 

“Eu penso que esse processo tende a formatar um método de aproximação, de acompanhamento e de indicação de caminhos. Esse encontro me mostrou o potencial de ter alguém dedicado a construir e conformar esse olhar, de como que a gente se aproxima dessas mulheres, de como ressignifica, como valoriza o que acontece lá em sua base”, reflete Rabanal.  

Em Três Barras a visita foi na propriedade de Maria Íris de Souza, integrante do coletivo Mulheres do Urucum. Ela, assim como outras mulheres do grupo, acessa o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com uma diversidade de alimentos do seu quintal produtivo, como mandioca, banana e milho. A experiência de acesso a essas políticas públicas de segurança alimentar e valorização da agricultura familiar são um exemplo de troca que o primeiro intercâmbio proporcionou, e que aponta para uma atuação do projeto no sentido do fortalecimento de tais cadeias produtivas. “O intercâmbio é uma potência para a gente germinar essa rede territorializada de comercialização entre mulheres”, aponta a coordenadora Junia Lousada.  

O Teia Agroecológica de Mulheres é fruto de uma parceria entre o Nacab e o mandato da deputada estadual Bella Gonçalves (Psol), por meio de emenda parlamentar, e tem como objetivo o fortalecimento de processos formativos, de produção e comercialização de agricultoras familiares, artesãs e lideranças comunitárias, com vistas à autonomia e autogestão de quatro grupos já organizados no território. Com duração de 12 meses, o projeto tem a agroecologia como alicerce para os temas da saúde, comercialização e alimentação.  

Texto: Nathália Iwasawa 
Edição: Fabiano Azevedo 
Fotos: Marcos Oliveira