Enquanto a Vale tenta encerrar programas como o Novo Auxílio Emergencial (NAE) e dificultar o atendimento relacionado as medidas emergenciais, como fornecimento de água e alimentação animal nos territórios atingidos, pesquisas sobre a saúde das pessoas, o meio ambiente e a segurança dos alimentos continuam em curso, ainda que em etapas iniciais ao longo da bacia do rio Paraopeba.

O rompimento da barragem B-I e o soterramento das barragens B-IV e B-IVA da Mina Córrego do Feijão continua a exigir respostas científicas e ações de longo prazo para a reparação socioambiental. Para entender a real dimensão dos riscos e garantir segurança às pessoas atingidas, os Estudos de Avaliação de Risco à Saúde Humana e Risco Ecológico (ERSHRE) são desenvolvidos ao longo de 29 municípios da Bacia do rio Paraopeba e da represa de Três Marias.
Os ERSHRE buscam identificar os riscos potenciais à saúde humana e ao meio ambiente devido à possível presença de substâncias químicas provenientes do rejeito no solo, na água, no ar e nos animais e, a partir dessa identificação, definir estratégias para lidar com esses riscos. Isso significa que os estudos buscam identificar 1) se as pessoas estão expostas a contaminantes e os efeitos dessa exposição para a saúde humana; 2) como estão a saúde e o equilíbrio da fauna (animais) e da flora (plantas) da bacia. A partir disso, os estudos definirão ações como reabilitação, remediação, monitoramento ambiental e acompanhamento da saúde pública. Para isso, os ERSHRE são desenvolvidos em cinco fases complementares.

O que já foi feito e o que falta fazer?
Na Fase 1, iniciada pelo Grupo EPA em 2019, foram levantados dados já publicados sobre a região e realizadas reuniões de escuta para mapear as principais preocupações das comunidades atingidas em relação aos potenciais riscos à saúde e ao meio ambiente. A ERM assumiu os estudos em agosto de 2025. Atualmente, estão sendo realizadas reuniões para apresentar a nova empresa responsável pelos estudos às lideranças e representantes das pessoas atingidas, além de relatar o estágio atual dos estudos e as próximas atividades previstas.
Paralelamente, estão sendo revisados os relatórios da Fase 1 e elaborados Planos de Investigação de Campo, que definem de forma rigorosa pontos essenciais das coletas, como os locais, a quantidade necessária de amostras, os métodos de coleta e quais substâncias serão analisadas. Em Brumadinho, já estão sendo apresentados os resultados da Fase 1 às comunidades, por meio de reuniões de devolutivas, e coletadas amostras para a Fase 2.
De acordo com o cronograma da ERM, as devolutivas da Fase 1 na Região 3 devem ser realizadas entre janeiro e julho de 2027. A empresa tem destacado que, além de apresentar o resultado da Fase 1, as devolutivas abordarão as metodologias utilizadas e as coletas da fase seguinte. Na Fase 2, serão coletadas amostras de solo, água e poeira, avaliados impactos sobre animais aquáticos e terrestres e analisados alimentos consumidos. Após as análises laboratoriais, serão caracterizadas as rotas de exposição, processados e calculados os riscos (Fase 3). Nas duas últimas fases dos ERSHRE, será desenhado e implementado um Plano de Gestão para intervir sobre os riscos, tratando o ambiente e acompanhando a saúde da população.
Comer e beber em segurança: a criação do Estudo da Produção Agropecuária e do Pescado

Os ERSHRE olham para a água, o solo, o ar, as plantas e os animais, mas faltava responder uma pergunta fundamental para o dia a dia das pessoas atingidas: a comida produzida na região (incluindo o peixe pescado no rio) é segura para ser consumida e vendida?
Essa pergunta surgiu como demanda das próprias comunidades e produtores atingidos e, para respondê-la, foi criado o Estudo da Produção Agropecuária e do Pescado na Bacia do Rio Paraopeba, que está sendo executado por pesquisadores do Núcleo Rogério Valle de Produção Sustentável (SAGE) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (COPPE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Reparação integral ainda segue distante
Enquanto os estudos ainda não apresentam respostas concretas que possam garantir a segurança da população, a Vale tenta encerrar sua responsabilidade de arcar com o Novo Auxílio Emergencial (NAE), entre outras obrigações. Contudo, a entrada de uma nova empresa nos estudos de risco e o surgimento de um novo estudo sobre os alimentos demonstram que, independentemente do que a Justiça decida acerca da continuidade do NAE, o processo de reparação está longe de ser concluído. Esse cenário reforça a necessidade do Novo Auxílio Emergencial e a continuidade de medidas como o fornecimento de água, a distribuição de alimentação animal e a manutenção dos cercamentos.

Lair de Farias é produtor de leite da comunidade de Cachoeirinha, em São José da Varginha, cria gado às margens do Paraopeba e utilizava a água do rio para saciar a sede dos animais. Apesar de sua propriedade estar às margens do rio, Lair relata que teve o fornecimento de insumos interrompido pela Vale. O Programa de Abastecimento Emergencial (PAE), elaborado pela mineradora, prevê critérios restritivos para o fornecimento de água, alimentação animal e cercamento de áreas lindeiras ao rio Paraopeba, incluindo situações de restrição ao uso do rio. Mesmo assim, segundo o produtor, seu atendimento foi interrompido pelo canal telefônico da empresa. “Ela parou de me entregar. Antes, eu estava recebendo dezessete sacos”, relata Lair, que afirma ter ficado dois anos com a margem do rio cercada. O produtor também compara seu caso ao de vizinhos que continuam recebendo ração, água e silagem.
Quando a Vale veio aqui, cercou a margem do rio de todos os meus vizinhos também. Eles estão recebendo ração, água e silagem, mas o meu foi cortado. No fim, eu quem fico no prejuízo
Lair de Farias, Cachoeirinha, São José da Varginha
A situação vivenciada por Lair ilustra a diminuição de medidas emergenciais que deveriam prosseguir, dada a continuidade dos danos e prejuízos. Além disso, é importante compreender os riscos a que Lair e os animais podem estar submetidos devido à ausência de dados concretos e ao estágio atual dos ERSHRE e do Estudo da Produção Agropecuária e do Pescado.
A previsão da ERM é concluir a Fase 4 dos ERSHRE em agosto de 2030, quando os estudos serão incorporados ao Processo de Reparação, por meio do Anexo 2.1 – Recuperação Socioambiental, do Acordo Judicial de Reparação Integral. Assim, somente em 2030, ou seja, 11 anos depois do rompimento, as pessoas e comunidades atingidas saberão se existe risco à saúde e ao meio ambiente decorrente do contato com substâncias químicas relacionadas ao rompimento das barragens da Vale.

Tentar finalizar programas que garantem condições mínimas de sobrevivência às pessoas atingidas antes dos resultados desses estudos é ignorar riscos e danos ainda nem mesmo identificados.
Texto: Graziely Lima e Gerência de Reparação
Edição: Fabiano Azevedo e PH Reinaux
Fotos: Hérksson Maia e Marcio Martins