ATI 39 | MÉDIO ESPINHAÇO

Famílias em processo de reassentamento expõem incertezas e ansiedade  

Relatos de emoções, dúvidas e insegurança das pessoas atingidas marcam as oficinas participativas para a construção do Plano de Desenvolvimento Social (PDS) do reassentamento das comunidades a jusante da barragem da Anglo American.

Moradores das comunidades da Zona de Autossalvamento (ZAS) da barragem de rejeitos do Sistema Minas-Rio, que estão em processo de negociação para reassentamento, participaram de mais uma etapa de oficinas, dessa vez realizadas pela empresa Bridge, contratada da Anglo American. Segundo a empresa, o objetivo foi dialogar com as pessoas atingidas sobre anseios, dúvidas e oportunidades. A partir dessas informações será elaborado um diagnóstico que servirá de base para construção do Plano de Desenvolvimento Social (PDS) das comunidades. 

As oficinas participativas ocorreram na Escola Municipal de São José do Jassém e foram divididas por grupos: pessoas com 60 anos ou mais (no dia 02/10); comerciantes (03/10); pessoas de 16 a 59 anos (08/10); e produtores rurais (09/10). De acordo com o cronograma da empresa, está prevista para o mês de novembro a realização da última oficina, voltada às famílias identificadas na cartografia social, mas não elegíveis ao Plano de Reassentamento. 

Nas oficinas, os participantes contaram que estão preocupados com a manutenção de seus hábitos e modos de vida em um novo local. Essa preocupação foi mais destacada por moradores do núcleo de São José do Jassém, que possuem modo de vida rural, mas estão em área considerada urbana pela Anglo American. Por conta disso, eles só têm a opção de ir para o reassentamento coletivo urbano em Alvorada de Minas ou serem reassentados individualmente.

Pessoas com 60 anos ou mais relataram sobre suas rotinas de cuidado com a terra, horta, quintais e produções rurais e a alegria de morarem próximos de amigos e familiares. Comerciantes de São José do Jassém falaram sobre a segurança que sentem na comunidade, que podem deixar seus estabelecimentos abertos, sem que ninguém mexa. Eles disseram estar com receio de como irão refazer a clientela e onde irão guardar seus equipamentos até que estejam estruturados no novo local de moradia. 

Jovens contaram que vivem com muita liberdade, que entram nas matas, andam de bicicleta e podem ficar conversando na rua até de madrugada, sem nenhum problema. Pais e mães contaram que suas crianças brincam livres, andam por toda a comunidade, são conhecidas e cuidadas por todos os moradores, o que gera muita tranquilidade para as famílias. Os produtores rurais relataram preocupações de como continuarão seus plantios e criações de animais. Houve falas relatando dúvidas e insegurança em relação ao tamanho do novo terreno, se será suficiente para manter as criações, se contará com água de qualidade e em quantidade suficiente, e se a terra é boa para produção.  

“Vou sair com o coração doendo. Aqui nasci, cresci e trabalhei muito para criar meus sete filhos e hoje temos muita fartura! Estamos correndo o risco de ir para um lugar e passar fome. Eu não sei se vou ver um pé de fruta produzindo lá”

Eli Peixoto de Carvalho, morador da localidade Peão

“Não sabemos se nossos netos serão felizes como nós fomos em nosso lugar. Hoje temos uma bica na porta, solo bom e a gente planta muito”

Darcília Pires de Sena, moradora de Passa Sete

“Caracterizam o Jassém como urbano, mas a gente não considera. O mais grave é que as pessoas daqui contribuem há anos com o sindicato dos trabalhadores rurais. Como essas pessoas vão se aposentar indo para área urbana? Às vezes, uma casa de pau a pique traz mais felicidade, do que uma casa bonita”

Kátia Firmino Neves,moradora de São José do Jassém

“Não acho que o reassentamento será benéfico. As pessoas de 60 anos ou mais não terão a liberdade e o modo de vida que têm aqui. Hoje quando precisam de alguma coisa, só chamam os vizinhos. O que vai ser elaborado para eles não entrarem em depressão?”

Weverton José da Lomba Alves,morador de São José do Jassém

“Tomo chá de folha e não consigo dormir. Onde Deus me colocar, eu vou! Talvez ele esteja nos levando para um lugar melhor!”

Cecília da Silva, moradora do Córrego do Saraiva

“Quando falo em sair daqui, meu coração dói. A gente sabe que não vai ser a mesma coisa. Não vamos ficar pertinho um do outro. Tem pessoas que pensam que reassentado da Anglo American está rico e corremos o risco de sermos até assaltados lá! Peço a Deus que nos proteja!”

Neuza Maria Pacífico de Carvalho, moradora do Córrego do Saraiva

“No meio disso tudo, o pequeno produtor rural ficou sem saída. Quando as famílias de Jassém forem reassentadas, não terá um posto de saúde, uma escola, um comércio e eu terei ainda mais dificuldades. Já fui comerciante e hoje sou produtor rural, escolhi morar aqui porque sou daqui. Todos me conhecem e sabem disso. Hoje, aos 72 anos, estou tendo uma perda significativa, com dificuldades de encontrar mão de obra e minhas terras foram desvalorizadas, porque ninguém quer morar debaixo de uma barragem”

Bento Aécio Simões, proprietário da fazenda Barreado, em Córrego do Saraiva

Carga emocional 

Durante as participações nas oficinas, diversas pessoas atingidas demonstraram desgaste, ansiedade e fragilidade emocional ao serem questionadas sobre seus sentimentos, dúvidas e anseios em relação ao reassentamento. Muitas delas choraram durante as dinâmicas realizadas, principalmente quando precisaram responder à pergunta: “O que vocês querem levar na mala?”. Foram relatadas várias situações que as famílias têm passado. As pessoas presentes solicitaram que a Anglo American forneça, o mais rápido possível, por meio de contratação, acompanhamento psicológico às pessoas atingidas.   

“A ATI também identificou a necessidade de iniciar imediatamente o atendimento psicológico preventivo nas comunidades, antes do deslocamento das famílias, considerando os riscos à saúde mental, que foram evidenciados nessas oficinas. Os sentimentos de insegurança, luto, ansiedade e indícios de sofrimento socioemocional intenso entre as famílias da ZAS podem estar relacionados ao medo da barragem, à incerteza sobre o futuro, à ruptura dos vínculos sociais e territoriais e ao não reconhecimento do modo de vida rural que o processo de reassentamento tem causado à comunidade”, explica Inaiê Vilhena, analista multidisciplinar da área psicossocial da ATI 39 Nacab.  

“Nas duas modalidades de reassentamento o custo de vida dos moradores vai aumentar para continuarem tendo a alimentação com produtos que hoje eles têm no quintal. Mesmo que esteja tudo plantado no novo local, vai demorar para produzir e não há hortifruti que resolva, pois a diversidade nos locais de origem é grande”, avalia Cíntia Miranda, analista muldisciplinar da área psicossocial da ATI 39 Nacab. 

Grupo de Trabalho do PDS 

Para construção do PDS foi instituído um grupo de trabalho com representantes das comunidades, da ATI 39 Nacab, da Anglo American e dos municípios de Alvorada de Minas e de Conceição do Mato Dentro. No decorrer das reuniões já realizadas, a ATI contribui com propostas de ações baseadas no conhecimento de campo e em documentos técnicos já produzidos.  

De acordo com a Bridge, as informações levantadas nas oficinas serão tratadas e, ao final de outubro, serão apresentadas para validação das comunidades. O diagnóstico final a empresa prevê entregar ao final de novembro. De posse do diagnóstico, o grupo de trabalho dará continuidade às reuniões para construção do PDS. 

Reportagem: Patrícia Castanheira 
Edição: Brígida Alvim 
Locução: Patrícia Castanheira e Georgyanne Sena 
Comunicação ATI 39 Nacab