“Tá caindo fulô,
Tá caindo fulô.
Tá caindo fulô,
Tá caindo fulô,
Cai no céu,
Cai na terra,
Ô lelê tá caindo fulô.”
(Cantiga popular entoada pelos congadeiros).
Ao som de cantos, vissungos e rezas, o cortejo de Nossa Senhora do Rosário desfilou pelas ruas de Itapanhoacanga (Alvorada de Minas), sob as bênçãos da santa homenageada. A Festa de Nossa Senhora do Rosário de Itapanhoacanga é reconhecida como patrimônio cultural do município. Desde 1723, o distrito, que integra a histórica Estrada Real, celebra a festa com representação do rei, da rainha e a participação de grupos de marujos, caboclos, congados e banda de música, em uma manifestação de fé, cultura e tradição que atravessa gerações.
Neste ano, a festa religiosa foi iniciada no dia 4 de julho e seguiu até o dia 14, reunindo moradores, visitantes e guardiões da cultura popular afro-mineira. A programação começou com a Santa Missa e o início da novena na primeira sexta-feira do mês (04), preparando os corações dos fiéis para os momentos mais intensos da celebração: a coroação de Nossa Senhora do Rosário e o encerramento com a passagem das coroas de rei e rainha aos novos festeiros.

O último fim de semana foi marcado por missas, cortejos, procissões, levantamento da bandeira, queima de fogos, apresentações artísticas e musicais. No sábado, após a novena e Santa Missa, houve o hasteamento do mastro e queima de fogos; no domingo, a tradicional procissão percorreu as ruas do vilarejo ao som do Congado de Itapanhoacanga, da Marujada de Conceição do Mato Dentro, da Marujada e Caboclada de Sabinópolis, além da banda de música Nossa Senhora Aparecida de Córregos. No último dia, segunda-feira (14), foi realizada a missa de encerramento e o rito de passagem da coroa aos novos reis. O momento é de grande simbolismo, que marca a transição dos festeiros e o desejo da comunidade em garantir a continuidade da celebração.

Os festeiros de 2025, João Vianey de Carvalho e Joelma Cristina de Carvalho (pai e filha) contam que assumiram com orgulho a missão de manter viva a tradição centenária da festa e que o compromisso vai além da fé. Assumir a realização e garantir a continuidade é uma forma de preservar a memória de seus antepassados e a essência cultural da comunidade. Mas, apesar de gratificados e encantados pela beleza da festividade, Joelma e João chamam atenção para uma preocupação crescente: a dificuldade de encontrar novos festeiros para os próximos anos.

“A gente mantém essa cultura por conta dos nossos avós, para não deixar morrer a tradição. Se perdermos isso, perdemos a essência da festa. Se ninguém pegar a coroa, a festa acaba. E isso é muito triste. Antes tinha até caderno com fila de espera. Hoje, nem precisa mais. Está difícil encontrar quem queira fazer, porque dá muito trabalho”, descreve Joelma.
Pai e filha explicam que a organização da festa exige grande dedicação. Preparar doces, costurar roupas, enfeitar as ruas, montar a estrutura para as celebrações, cuidar dos detalhes litúrgicos e culturais são algumas das muitas tarefas. Além disso, algumas tradições, como o preparo artesanal das comidas típicas, têm se perdido com o tempo.
“As pessoas mais velhas que sabiam fazer os doces e comidas foram partindo, e hoje quase não tem quem tenha disposição e sabedoria para continuar. Às vezes, a gente acaba tendo que pagar para fazer, mas nem sempre quem faz tem gosto por aquilo. Tem que fazer com amor”, contam os festeiros.
Apesar das dificuldades, eles fazem questão de ressaltar que não estão sozinhos:
“A maior ajuda é da própria comunidade. O povo doa leite, bezerros, organiza bingos, faz quadrilha, tudo para arrecadar recursos. A festa é feita pelo povo mesmo. Isso é muito gratificante. A gente só tem a agradecer”, reconhecem, com gratidão, Joelma e João.

Assessoria Técnica Independente presente nas celebrações
Durante os festejos, a Assessoria Técnica Independente do Nacab (ATI 39) esteve presente, acompanhando os ritos e manifestações populares, dialogando com moradores, registrando vivências e fortalecendo vínculos com a comunidade. A coordenadora territorial, Karine Ferreira, avalia que a participação da ATI nas celebrações tradicionais está alinhada ao papel institucional de fortalecer a organização social, a memória coletiva e os modos de vida das comunidades atingidas, de forma a contribuir para sua valorização e preservação.

“As celebrações culturais, como a Festa de Nossa Senhora do Rosário, são expressões centenárias da fé, da resistência e da ancestralidade negra na região. Elas fortalecem os laços comunitários e mantêm viva a história do território. Por isso, é fundamental que a mineradora e as instituições públicas assegurem apoio financeiro, logístico e institucional para manutenção dessas festas, reconhecendo que são direitos culturais que integram o modo de vida das comunidades atingidas e precisam ser preservadas”, diz Karine Ferreira, coordenadora territorial da ATI 39 Nacab.
Ouça a reportagem:
Música: Tá Caindo Fulô | Interpretação: Banda Casa de Farinha
Reportagem e locução: Janaíne Ferraz
Edição: Brígida Alvim
Comunicação ATI 39 Nacab
