O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) informou, através de relatório técnico de junho, um aumento na concentração de ferro dissolvido e da bactéria Escherichia coli nos rios Santo Antônio e do Peixe, responsáveis pelo abastecimento dos municípios de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim. Em ambos os casos, os níveis detectados ultrapassam os limites estabelecidos por lei e, caso a água não passe por tratamento adequado, seu consumo excessivo pode representar riscos à saúde da população.
A análise comparou dados de dois períodos: antes da mineração (2008 a 2013) e após o início das atividades minerárias na região (2015 a 2024). O aumento da presença de ferro, de acordo com o relatório técnico do Igam, pode estar relacionado às atividades de extração, beneficiamento e transporte de minério; enquanto o de coliformes fecais está relacionado ao lançamento de esgoto.

O relatório foi produzido em resposta ao Requerimento de Providência nº 11.742/2025, feito pela Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), após relatos de moradores das 13 comunidades atingidas pelas atividades minerárias da Anglo American em audiência pública, realizada em abril, na Câmara Municipal de Conceição do Mato Dentro. Entre os problemas apontados por eles estão a percepção de escassez hídrica, de presença de metais pesados e insegurança quanto à qualidade da água disponível para consumo humano.
O documento também analisou os níveis de manganês e de turbidez, que apresentaram uma leve queda no período após o início da mineração. No entanto, os valores continuam acima dos limites permitidos pela legislação. De acordo com o Igam, a redução é pequena e pode estar associada ao volume de chuvas de cada período analisado.
Os dados foram obtidos a partir de coletas realizadas em dois pontos de monitoramento: a estação RD077, no Rio Santo Antônio, próxima à nascente; e a estação RD079, no Rio do Peixe, situada acima da foz do Rio Santo Antônio.

No primeiro ponto (RD077), a concentração média de ferro passou de 0,168 mg/L (antes da operação minerária) para 0,315 mg/L (depois da operação minerária), ultrapassando o limite de 0,300 mg/L. Os valores máximos registrados nesse ponto aumentaram de 0,311 mg/L (antes da mineração) para 1,001 mg/L (após o início da atividade minerária). Já no Rio do Peixe (RD079), a média subiu de 0,262 mg/L (antes da operação minerária) para 0,507 mg/L (depois das operações minerárias), com os valores máximos passando de 0,575 mg/L para 1,400 mg/L.

Avaliação da ATI 39 Nacab
A Assessoria Técnica Independente (ATI 39) Nacab, que atua junto às 13 comunidades atingidas na região, destaca a necessidade de investigações mais aprofundadas sobre a qualidade da água, especialmente em relação à presença de ferro e manganês. A localização dos pontos monitorados pelo Igam pode não representar adequadamente as condições da água nos locais efetivamente utilizados pelas comunidades assessoradas para consumo, uso doméstico e atividades produtivas.
Nesse sentido, a ATI defende a ampliação da rede de monitoramento, com a inclusão de pontos de coleta mais próximos às áreas de captação e de uso das comunidades, o que permitiria uma avaliação mais fiel da realidade vivenciada pelos moradores.

“Embora não seja possível afirmar categoricamente que a elevação dos níveis desses minerais decorra exclusivamente das atividades minerárias — uma vez que também pode ser resultante de outras fontes ou de processos naturais —, recomenda-se que o Estado realize uma investigação mais aprofundada. Seria pertinente analisar, em especial, os córregos e rios da região, prioritariamente os localizados nas proximidades do empreendimento e os dados históricos dessa mesma região, a fim de determinar se as elevadas concentrações estão ou não relacionadas às operações de mineração.”
Coordenador técnico da ATI 39 Nacab, Guilherme Bongiovani.
Análises da Anglo American
A Anglo American também monitora pontos do Rio do Peixe e de alguns pontos próximos ao Rio Santo Antônio, inclusive 02 pontos de um de seus afluentes. Conforme os resultados disponibilizados pela mineradora, do monitoramento de qualidade da água feito em 2024, os parâmetros de ferro dissolvido e manganês total estavam acima dos valores máximos permitidos pela legislação, na maior parte das amostras.
Uma das amostras retiradas do Rio do Peixe, em outubro de 2024, apresentou resultado três vezes maior que o permitido de ferro dissolvido: 0,900 mg/L, sendo 0,300 mg/L o valor máximo permitido. Em um dos pontos afluentes do Rio Santo Antônio, em dezembro de 2024, o resultado da amostra de água coletada foi ainda maior, 1,740 mg/L.
Em relação ao manganês total, em outro ponto do afluente do rio Santo Antônio, os resultados da maior parte das amostras ficaram acima do permitido. O maior índice registrado foi da amostra coletada em janeiro de 2024: 0,333 mg/L, correspondente a três vezes o valor máximo permitido, que é de 0,100 mg/L.
A mineradora afirmou que esses parâmetros estavam acima do permitido, porque são elementos característicos da formação geológica local e da mineralização da área.
* O que é Mineralização? É o nome dado ao processo natural de formação e concentração de minerais no solo e nas rochas de uma região. Quando se fala que uma área tem “mineralização”, significa que ali existem determinados elementos químicos presentes de forma natural, por causa da geologia do lugar.
Reportagem e Locução: Janaíne Ferraz
Edição: Patrícia Castanheira e Brígida Alvim
Comunicação ATI 39 Nacab