Paraopeba

Intercâmbio cultural leva pessoas atingidas de Paraopeba ao Quilombo do Açude, na Serra do Cipó

Casa Aldeia das Folhas Tenda Pai Julião das Almas, do Pai Tozinho, participa de formação no âmbito do Anexo 1.3 do Acordo de Reparação pelo desastre-crime da Vale, em Brumadinho

Um encontro marcado pela troca de presentes, saberes, memória e resistência reuniu 7 representantes da Casa Aldeia das Folhas Tenda Pai Julião das Almas, de Paraopeba, liderada por Pai Tozinho, e o grupo Conexão Ancestral no Quilombo do Açude, em Jaboticatubas, município onde se situa parte da Serra do Cipó. A atividade aconteceu no último sábado, dia 25/04, e reuniu, no total, cerca de 20 pessoas.

Direcionada aos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana (PCTRAMA) das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, a ação integra o Anexo 1.3 do Acordo de Reparação. Este anexo é voltado ao fortalecimento dos serviços públicos na Bacia do Paraopeba, e a atividade se insere no eixo de Formação e Capacitação em Direitos Humanos, Associativismo e Contabilidade.

Além do intercâmbio cultural a iniciativa também serviu como formação profissional para os filhos da Casa Aldeia das Folhas, especialmente no aprendizado sobre a origem e a confecção de tambores. Nesta etapa, o foco foi a tradição do candombe, manifestação secular considerada uma das matrizes dos congados e da devoção a Nossa Senhora do Rosário.

Intercâmbio reuniu cerca de 20 pessoas, da comunidade quilombola e da Casa Aldeia das Folhas Tenda Pai Julião das Almas, em Paraopeba

Durante o encontro, mestres e lideranças comunitárias destacaram a importância da preservação cultural e da educação como caminhos essenciais para a transmissão de saberes entre gerações. “Esse intercâmbio é a realização de um sonho, e trocar é uma etapa muito importante para manter viva a tradição”, afirmou Pai Tozinho, reforçando a importância da atividade.

Pai Tozinho, responsável pela casa de umbanda em Paraopeba, e que ministra formação no âmbito do Anexo 1.3

O secretário de Cultura de Santana do Riacho e liderança no quilombo, conhecido como Culta, destacou a força da tradição local e suas características. “Aqui, a gente não usa uniforme. A tradição está no corpo, na caminhada e na luta do nosso povo”, explicou. Ele também ressaltou a relação entre cultura e educação como base para a resistência da comunidade quilombola, mantida, segundo ele, “com muita inspiração na luta das matriarcas”.

Mateus Sabino, jovem liderança do quilombo, apresentou elementos centrais do candombe, como os três tambores tradicionais (Santa Maria, Guaiá e Guaí), e explicou o significado espiritual da prática. “Esses tambores são tocados com fé. Eles testam quem toca. É preciso respeito, porque é uma tradição de muitos anos”, afirmou. Tradicionalmente as celebrações no quilombo acontecem aos sábados, mobilizando a comunidade em todas as etapas, desde a coleta da lenha até a partilha dos alimentos. A próxima grande celebração está prevista para o segundo sábado de setembro.

Também estiveram presentes no intercâmbio representantes das equipes envolvidas na execução das ações e da Vale – que, pelo Acordo de Reparação Integral, tem obrigação de pagar pela execução do projeto.

O encontro representa uma conquista e um passo importante na valorização das culturas tradicionais, fortalecendo vínculos, identidades e estratégias de resistência nos territórios atingidos pela mineração.

Veja abaixo o álbum de fotos do intercâmbio:

20260425 - Anexo 1.3 - Intercâmbio cultural no Quilombo do Açude (Santana do Riacho/MG)

Texto e fotos: Pedro Reinaux
Edição e publicação: Fabiano Azevedo