Paraopeba

Mãe Kel tem trajetória cultural reconhecida pela PNAB Minas Gerais 2026

Com apoio da ATI Paraopeba Nacab, mãe de santo de São José da Varginha foi premiada por sua trajetória de quase vinte anos

A trajetória de Mãe Kel na preservação dos saberes de matriz africana, no acolhimento comunitário e na valorização da cultura ancestral foi reconhecida no edital de “Premiação de Trajetória” da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB Minas Gerais 2026). A PNAB, instituída pela Lei nº 14.399/2022, tem como objetivo fomentar e fortalecer a cultura em todos os estados e municípios brasileiros. 

Moradora de São José da Varginha (MG), Mãe Kel é responsável pelo Terreiro de Umbanda Ilê Axé Nossa Senhora Aparecida e atua há quase duas décadas na transmissão de conhecimentos tradicionais ligados à espiritualidade, ao uso de ervas medicinais e aos cuidados comunitários. 

Com apoio da ATI Paraopeba Nacab, ela organizou um portfólio reunindo sua trajetória social, cultural e religiosa, apresentado à comissão responsável pelo reconhecimento. Para ela, o resultado representa não apenas uma conquista pessoal, mas também o reconhecimento de uma história construída coletivamente. “São muitos anos de dedicação, acolhimento e transmissão de saberes. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelos terreiros de matriz africana, seguimos mantendo viva essa tradição e fortalecendo nossa comunidade”, afirma. 

Filha de Oxum, Mãe Kel desenvolve desde 2006 práticas como benzimentos, banhos de ervas e orientações espirituais. Em 2012, fundou o terreiro e mantém o espaço por meio do trabalho voluntário, com muita fé, compromisso com a preservação das tradições afro-brasileiras e ações voltadas ao fortalecimento da comunidade. Segundo o parecer da comissão avaliadora da PNAB, sua atuação possui papel relevante na manutenção dessas tradições e na valorização da diversidade cultural em Minas Gerais. 

Cultura, espiritualidade e reparação 

Além da atuação cultural e religiosa, Mãe Kel participa do processo de reparação da bacia do rio Paraopeba como representante dos Povos de Tradição de Matriz Africana (POTMA) nas instâncias de participação do Anexo 1.1. Seu terreiro e sua comunidade estão entre os territórios atingidos pelo rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, em 2019. 

Na reparação, sua atuação tem contribuído para ampliar o debate sobre os impactos sofridos pelos povos tradicionais, especialmente aqueles relacionados à cultura, à espiritualidade e à relação com a natureza. Para Mãe Kel, a reparação precisa reconhecer dimensões que vão além das perdas materiais. “Se você não está bem no espiritual, dificilmente estará bem no físico. Por isso, esse manejo com as ervas e com a ancestralidade é fundamental. Manter essa tradição, especialmente em um cenário de intolerância, é um ato de resistência. A força das ervas é fundamental para nossa vida. A erva cura”, afirma. 

Mãe Kel no encontro de PCTs da Região 3 com a Entidade Gestora do Anexo 1.1, em Paraopeba, no ano de 2024
Foto: Karina Marçal

Ancestralidade e formação dos saberes 

Grande parte dos conhecimentos que hoje orientam a atuação de Mãe Kel foi construída a partir dos ensinamentos de sua tia-avó, Ana Ribeiro, conhecida como Tia Nita. Mãe de santo e benzedeira, Tia Nita era reconhecida pelos saberes relacionados às tradições de matriz africana, ao uso de ervas medicinais e aos cuidados espirituais e comunitários.  

Foi ao lado dela que Mãe Kel iniciou sua formação nos conhecimentos tradicionais que mais tarde levaria para o Terreiro Ilê Axé Nossa Senhora Aparecida. “Desde cedo acompanhei os rituais, os benzimentos e o uso das ervas. Aprendi convivendo e observando seus ensinamentos. Ela foi minha professora e minha maior referência espiritual e cultural”, relembra. 

Ao falar da tia-avó, a emoção aparece na voz. “Vó Nita é minha principal referência em tudo. Era uma pessoa carinhosa, meiga, serena e muito comprometida com o sagrado. Eu vivo aquilo que aprendi com ela. Se hoje cheguei a esse conhecimento, agradeço primeiramente a ela”. Para Mãe Kel, manter vivos esses ensinamentos é uma forma de honrar sua ancestralidade e garantir que os saberes tradicionais continuem sendo transmitidos às novas gerações. 

Texto e foto de capa: PH Reinaux
Edição: Fabiano Azevedo
Publicação: Marcos Oliveira