Live sobre participação popular envolveu pessoas atingidas das cinco regiões da bacia do Paraopeba, de Brumadinho a Três Marias
Na noite de quarta-feira, 13 de abril, pessoas das cinco regiões que abrangem os 26 municípios mineiros afetados pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho estiveram em um debate ao vivo, transmitido pelo YouTube, sobre a participação popular no Anexo 1.1 do Acordo Judicial de reparação do desastre-crime. Este anexo prevê a criação de um fundo de R$ 3 bilhões para investimentos em projetos de recuperação socioeconômica nas localidades atingidas.
Com o tema “Projetos das comunidades atingidas: quem decide?”, a live contou com representantes das cinco regiões, que incluem Brumadinho e outros 25 municípios da Bacia do Paraopeba e Lago de Três Marias, além de representações das comunidades indígenas e dos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs).
Também estiveram presentes integrantes das Assessorias Técnicas Independentes (Aedas, Nacab e Guaicuy); representantes do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM); o Bispo da Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário (Renser) da Arquidiocese de Belo Horizonte, Dom Vicente.
Houve grande audiência (1.740 visualizações durante o tempo de realização da live) e centenas de participações pelo chat do YouTube.
Sistema de participação
Dando continuidade à construção coletiva iniciada há um ano com as comissões de pessoas atingidas, as ATIs falaram sobre a elaboração de uma proposta de sistema que visa assegurar a participação popular das pessoas atingidas nos espaços de decisão e de fiscalização do fundo de projetos do Anexo 1.1. A proposta abrange a gestão dos recursos, a distribuição e a execução dos projetos.
Para ilustrar e detalhar a iniciativa, as ATIs estão preparando em conjunto um caderno chamado “Construindo projetos e demandas com participação popular (Anexo 1.1)”, que será distribuído presencialmente em reuniões com as pessoas atingidas em suas localidades.
“Estamos iniciando a parte de consulta às comunidades. Faremos em todas elas um espaço aberto onde as famílias, os núcleos, os grupos podem ver o caderno, ver as propostas e fazer sugestões, que serão organizadas pelas ATIs. Nossa previsão é de que até a primeira semana de maio esta fase esteja concluída em toda a bacia. Aí vamos iniciar outra etapa que é a de finalização desse processo, com a realização de uma grande assembleia, que será o espaço de aprovação e finalização da proposta”, explica Luciano Marcos da Silva, gerente de Reparação Socioeconômica e membro da coordenação geral da ATI Paraopeba Nacab.
“Esperamos que seja um grande mutirão. É muito importante estarmos juntos para fazer a proposta ficar forte, robusta e contemplar a todas as expectativas sonhadas”, acrescenta Luciano Marcos.
Caso seja aprovada, a proposta será encaminhada, em nome da população atingida, para as Instituições de Justiça (IJs) apresentarem em juízo um modelo de gestão e governança dos recursos, conforme previsto no acordo.
Laços de união reforçados
A live foi marcada por muitas falas que reforçaram a importância da união entre as pessoas de diferentes regiões atingidas, além de apoiadores:
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“Nossas perdas são imensuráveis e a cada ano aumentam. Toda a região 3 está devastada e a gente está lutando com toda a garras, mas precisamos da união de todos atingidos, da região 1 à região 5, para fazer com que nossos direitos prevaleçam. As pessoas atingidas precisam estar na luta junto às comissões e representatividades, para fazer com que o Anexo 1.1 seja executado o mais rápido possível, porque já fomos impedidos do acesso às medidas emergenciais. Vamos lutar por este anexo e também pela aprovação dos planos de trabalho das ATIs”.
Patrícia Passarela, integrante da Comissão de atingidos de Taquaras, Esmeraldas
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“Estou muito feliz em poder apresentar o que é, em linhas gerais, fruto do nosso trabalho coletivo. O anexo 1.1 vai tentar amenizar o sofrimento e trazer de volta o desenvolvimento econômico nas áreas atingidas. As ATIs têm toda a expertise, mas quem montou esse plano de trabalho fomos nós atingidos, porque nos foi oportunizada a participação. Colocamos nossas ideias, sendo sempre sistematizadas pelos técnicos e especialistas das ATIs. Tivemos a sensibilidade de ouvir e buscar contemplar nessa proposta os anseios de toda a bacia. E ela não está fechada, está aberta e por isso conclamamos a todos que participem e venham se juntar a nós. Este é um trabalho conjunto de todas as áreas atingidas”.
Abdalah Nassif, da comissão de Beira Córrego, Retiro dos Moreiras e Adjacências, em Fortuna de Minas
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“O grande esforço das pessoas atingidas, das ATIs e dos movimentos sociais é de construir uma proposta de governança popular. Ela só vai acontecer com a participação dos atingidos, garantindo a centralidade da vítima, protagonismo e autonomia. Vamos buscar a governança popular e que o maior número de pessoas atingidas possa participar, lembrando que a participação está garantida por lei – na Política Estadual dos Atingidos por Barragens (PEAB), aprovada na Assembleia no ano passado, como resultado da luta”.
Fernanda Minas, do Movimento de Atingidos por Barragem (MAB)
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“Não esperemos nenhuma solução dos grandes, projetos prontos. Aquilo que já jogam na nossa mesa dizendo que isso é a verdade. Desconfiem de tudo isso, porque se isso desse certo já estaríamos bem. Que possamos abraçar com muita força, sabendo que a solução vem da participação popular. Se não for daí não vai ser solução, vai continuar sendo projeto de exploração, de imposição, domínio, colonianismo. Nós queremos que a força venha do povo!”
Dom Vicente Ferreira, Bispo da Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário (Renser) da Arquidiocese de Belo Horizonte
Serviço
Confira a gravação da live "Projetos das comunidades atingidas: quem decide?"
Ouça esta notícia:
Reportagem: Brígida Alvim
Edição: Leonardo Dupin e Raul Gondim
Narração: Marcos Oliveira
Arte gráfica: Fabiano Azevedo