Paraopeba

Rejeitos da Vale continuam avançando e podem contaminar novas áreas com as chuvas 

Estudo do Nacab revela que cheias de 2022 amplificaram geograficamente os danos do desastre-crime inicial

Um estudo científico conduzido por profissionais da ATI Paraopeba Nacab, no final de 2025, traz novo entendimento sobre as consequências da deposição de rejeitos no rio Paraopeba, decorrentes do rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019. Intitulado “Monitorando a Remobilização de Rejeitos Pós-Brumadinho: Uma Análise dos Impactos Combinados de Cheias Extremas por Sensoriamento Remoto”, o estudo, aceito para publicação pela revista acadêmica Remote Sesing Applications Society and Environemnt, revela que o desastre-crime de Brumadinho está longe de ser um evento do passado. 

Utilizando imagens de satélite, ele comprova que os rejeitos da Vale, que estavam depositados no fundo do rio Paraopeba após o rompimento da barragem, foram transportados pelas grandes cheias de 2020 e 2022. O resultado é alarmante: uma área de mais de 65 milhões de m² apresentou alta concentração do mesmo tipo de óxido de ferro encontrado no rejeito proveniente da barragem. Essa área equivale a cerca de 9.122 campos de futebol. 

O estudo também aponta que uma área de cerca de 24 milhões de m2 apresentou, após as cheias, aumento da concentração do material ferroso, uma intensa perda da vegetação e o aumento da concentração de argila – material característico na composição do rejeito por mineração. Os índices são equivalentes aos da região diretamente atingida pelo rompimento, em Brumadinho, o que evidencia que o rejeito foi redistribuído no território, anos após o desastre-crime.

Imagens das propriedades atingidas pelo desastre-crime da Vale, os danos e impactos da cheia do Rio Paraopeba, em 2022
A “Lama Invisível” que avança

A partir da análise de 25 anos de imagens de satélite, a pesquisa identificou o que os pesquisadores denominam de “danos supervenientes e continuados”: estragos que aconteceram após o rompimento e de forma continuada. A cada nova cheia, o rejeito tóxico pode ser novamente movimentado e depositado em terras que antes eram produtivas. Em 2022, embora a enchente tenha sido apenas 32% maior que a de 2020, o impacto da lama detectado pelo sensoriamento remoto saltou impressionantes 119%. 

Centenas de pontos de captação de água, como poços e cisternas, foram atingidos pela lama nas cheias. De acordo com dados coletados pela ATI Nacab no território atingido, nas duas primeiras semanas após as cheias de 2022, o impacto no bolso e na vida de quem vive à beira do rio é devastador: estima-se que os produtores rurais da região tenham um prejuízo de até dezenas de milhões de reais por ano em pastagens e plantios perdidos. 

Um exemplo é a propriedade de Mona Lisa Cardoso, situada às margens do rio, na zona rural do município de Paraopeba. Dona de pouco mais de 140 cabeças de gado, Mona Lisa recebe da Vale, desde 2019, silagem e água. Mas suas terras nunca mais foram as mesmas depois que as águas baixaram, após a enchente de 2022: “A característica que nós identificamos foi a viscosidade daquela água com rejeito, uma coisa muito pesada. E o pior, depois que [a lama] secou, virou concreto, tem locais que tem aí 40 cm de rejeito”, ela diz. 

“Eu sou uma produtora rural. Qual que é a minha ferramenta de trabalho? A terra e a água. Com a enchente de 2022, meu terreno ficou todo contaminado e eu estou sem área para plantar. Hoje, para realizar minhas atividades eu dependo 100% da Vale. Todos os produtores da margem de rio estão sofrendo com isso. Não adianta querer plantar que não vai nascer, porque a camada superior da terra, onde ficava a matéria orgânica, foi toda compactada por rejeito, parecendo um concreto”

Mona Lisa Cardoso, produtora rural de Paraopeba

José Paulo da Silva, morador da comunidade de Taquaras, em Esmeraldas, também teve sua propriedade totalmente comprometida: “O prejuízo foi muito grande, após o rompimento. Eu tinha um pomar, que era para complemento de renda e hoje já não tenho mais. Eu estou na beira do rio, então eu pescava e o peixe que eu pegava eu vendia para alguns amigos e agora não posso mais pescar. O meu terreno acabou! Está completamente desvalorizado e não posso plantar mais nada nele. O sentimento é de revolta. A gente está nessa luta aí e não temos nenhum retorno. Ninguém vem aqui para ver como a gente está vivendo. Não sabemos como está a nossa saúde vivendo aqui. Não existe mais nada aqui na comunidade. Não podemos criar nada e nem plantar uma horta. O sentimento é de muita revolta.” 

Fora do acordo de indenização 

Apesar dos graves efeitos dessa nova contaminação para as famílias atingidas, o Acordo Judicial assinado em 2021 pela Vale, as Instituições de Justiça e o Estado de Minas Gerais, não cobre esses novos danos causados pela lama que se espalha com as chuvas. O valor pago pela empresa para a reparação dos danos do rompimento não envolve danos supervenientes, futuros e desconhecidos, como os causados pelo rejeito movimentado pelas cheias do rio nos anos posteriores ao rompimento. Assim, o Nacab alerta que cerca de 2 mil pessoas estão sendo “revitimizadas”, enfrentando uma contaminação que a mineradora não previu e que ainda não tem previsão de indenização. 

Em resumo, segundo a leitura e análise das bandas espectrais fornecidas pelo satélite, a lama não parou de avançar. Ela segue invadindo casas, quintais, áreas produtivas, plantações, pastagens e matas nativas, matando o solo e contaminando a água de quem achava que já tinha passado pelo pior. 

O estudo alerta para a escassez de pesquisas realizadas após o momento inicial do desastre. Por isso, buscou demonstrar como as consequências futuras do rompimento se agravam com eventos climáticos extremos como as chuvas intensas de 2020 e 2022, podendo se tornar tão ou mais significativas do que no logo após o rompimento. Além disso, medidas de reparação socioambiental previstas no Acordo, como a criação de um Plano de Reparação Socioambiental da Bacia do Paraopeba, ou a já citada dragagem do rio, permanecem estagnadas ou seriamente atrasadas. 

O estudo em questão foi realizado em 10 dos 26 municípios que foram diretamente impactados pelo rompimento da barragem. Este recorte se deve ao fato desta ser a área de abrangência do Nacab enquanto Assessoria Técnica. Assim, é importante considerar que os números estimados podem aumentar muito a partir da replicação dessa pesquisa no restante da calha do rio Paraopeba. 

“Este estudo é muito importante para o processo de reparação, pois indica a existência de danos supervenientes, ou seja, danos causados pelo rompimento que não foram parte do acordo de reparação, e, portanto, ainda não foram analisados pela Justiça, nem indenizados”

Vera Guimarães, do jurídico da ATI Paraopeba Nacab

A partir dos resultados deste estudo, é possível concluir que sua metodologia pode ser replicada em outros contextos de desastres de mineração. A partir dela, é possível demonstrar que os impactos de longo prazo de desastres de mineração podem ser amplificados por eventos climáticos, criando um ciclo de danos que se estende muito além do local e do momento inicial da tragédia. Esta pesquisa deixa claro que ainda há muito a ser estudado, compreendido e indenizado com relação aos danos derivados do crime do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. 

Clique aqui e leia o pré-print na revista acadêmica Remote Sensing Applications Society and Environment.

Texto: Fabiano Azevedo
Fotos e publicação: Marcos Oliveira