ATI 39 | MÉDIO ESPINHAÇO

São José do Jassém é comunidade quilombola! 

Comunidade se autodefiniu remanescente de quilombo, junto com as localidades Córrego do Saraiva e Córrego do Peão, da área rural de Alvorada de Minas. Elas estão em processo de reassentamento, por residirem abaixo da barragem de rejeitos da Anglo American. A autodefinição resulta de resgate identitário e da constante luta por direitos

Após refletirem sobre identidade, modos tradicionais e ancestralidade, moradores de São José do Jassém, Córrego do Saraiva e Córrego do Peão se autodefiniram remanescentes de quilombo. A autoidentificação ocorreu em duas assembleias realizadas pelas comunidades com o apoio do projeto Quilombo Vivo II, do Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (Cedefes), nos dias 9 de julho e 15 de agosto de 2026, na escola municipal de Jassém.  Antes, elas participaram de encontros formativos sobre o que é ser quilombola, direitos de povos e comunidades tradicionais e a valorização da própria história. A ATI 39 Nacab acompanhou o processo, a pedido das comunidades. 

Na primeira assembleia, participantes mostraram que “São José do Jassém tem muita história para contar”. Foram lembrados casos de parentes que trabalharam em fazendas e carvoaria, sem salário, em troca de alimentação; o “Cemitério dos Peixes”, local onde pessoas escravizadas foram mortas e sepultadas; o aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição; costumes e tradições como benzeção, uso de plantas medicinais e antigas profissões como parteiras e artesãos de caixão.  

O advogado Matheus Mendonça Leite, da Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo), e Frederico Gonçalves, coordenador do Quilombo Vivo II, tiraram dúvidas e explicaram sobre direitos quilombolas e o processo de autoidentificação. Ao final da assembleia, Alcione Mendes, do Quilombo Vivo II, leu a ata de autodefinição, que foi assinada pelos moradores presentes. Outra assembleia foi agendada para incluir as pessoas que não puderam participar da primeira. 

Troca de experiências 

A segunda assembleia teve a participação de Julius Keniata, membro da comunidade quilombola Buieié, da região rural de Viçosa, advogado popular e atual vice-presidente da Federação N’Golo. Ele compartilhou histórias, costumes e tradições de seu povo, que despertaram identificação entre os moradores. Contou, por exemplo, que cresceu em casa de pau-a-pique e que ajudava os familiares a construírem suas casas, ficando com a difícil função de buscar esterco fresco para dar liga à massa.  

Marcos da Lomba, de São José do Jassém, em seguida compartilhou: “Eu nasci e me criei aqui. A gente foi criado numa casinha de pau-a-pique. A cerâmica nossa lá era bosta de boi, que passava no chão. Fogão de lenha era tabatinga, um barro branco, que a gente passava no fogão. A capanga que a gente carregava era feita de saco de linho. Não só as capangas, como short também. Minha mãe aproveitava os sacos para fazer pra nós os shorts. Não tinha calça, né? Às vezes cada um tinha uma calça comprida, mas não dava nem pra saber qual era o pano original dela, de tanto remendo”

Julius contou como a sua comunidade se descobriu quilombola e chegou à autodefinição. Ele explicou que os moradores de Buieié tinham medo de terem de fazer mudanças e transformações ao se reconhecerem quilombolas, mas que, ao contrário, essa identidade cultural fortalece a importância de preservar as tradicionalidades, os saberes, as manifestações de fé e os modos de vida de um povo.  

Julius contou como a sua comunidade se descobriu quilombola e chegou à autodefinição. Ele explicou que os moradores de Buieié tinham medo de terem de fazer mudanças e transformações ao se reconhecerem quilombolas, mas que, ao contrário, essa identidade cultural fortalece a importância de preservar as tradicionalidades, os saberes, as manifestações de fé e os modos de vida de um povo.

“Ter a identidade quilombola não significa que a comunidade tenha que mudar seu jeito. (…) O governo do Brasil reconheceu que cometeu um crime contra as pessoas que vieram da África para serem escravizadas aqui. E hoje o Estado tem o dever de garantir a permanência das celebrações, da fé, das tradições, da cultura e dos territórios quilombolas”. Ele também disse que: “No quilombo cabe uma diversidade de religiões e cada pessoa pode ter a sua”. 

A jovem moradora Thays Almeida compartilhou: “Eu creio que muitas pessoas ainda têm um pouco desse receio porque somos vistos com preconceito. A comunidade de Jassém, principalmente. Eu mesma estudei em Alvorada e o pessoal da sala achava interessante, achava legal me falar que eu era do Jassém, por exemplo, como se fosse uma coisa ruim. E eu mais nova, claro que não gostava de falar que era daqui, porque eu não entendia de história e como que era essa comunidade. E, depois de mais velha, fui entendendo a questão da história, das tradições que nós temos que preservar. Então, trazer essa questão quilombola para a sociedade vai ser de grande importância!” 

O professor e advogado Matheus novamente respondeu dúvidas dos moradores. Ele explicou que os direitos e acordos alcançados como comunidades atingidas pelo complexo Minas-Rio não estarão em risco por causa da autodefinição quilombola. E que, ao invés de perderem conquistas, elas podem adquirir novas.  

“Quando uma comunidade se reconhece quilombola, ela passa a acessar uma série de direitos, como o direito à consulta, à educação quilombola, o direito de não serem retirados compulsoriamente de seus territórios, entre outros”, disse Matheus.  

Ao final, as pessoas presentes se afirmaram quilombolas e assinaram a ata de autoidentificação. Elas autorizaram que o Cedefes faça o envio da documentação à Fundação Cultural Palmares, para serem certificadas oficialmente como remanescentes de quilombo.

Esperança de um futuro melhor 

O casal Maria Inês Pacífica de Carvalho e Reinaldo Aparecido de Carvalho, moradores de Córrego do Saraiva, acreditam que a certificação e o acesso aos direitos quilombolas possam gerar um futuro melhor para sua família e comunidade.  

“Eu me sinto bem, porque é uma coisa boa para o futuro da gente, né? Que seja melhor para os filhos da gente, o futuro, porque a gente é passageiro, né?”, disse Maria Inês.

Sobre o que é ser quilombola, eles refletem: “É, assim, tudo que a nossa família traz, do tempo dos escravos, como minha mãe já contou, das histórias dos mais velhos. Isso se torna uma raiz, né? Esperamos assim, tenho certeza, que vai ser coisa boa para nós”, disse Maria Inês. “É muito bacana a gente ser reconhecido quilombolas. Porque é uma coisa que, pelo que eu entendi, no futuro vai ajudar a gente bastante. Assim, com as benfeitorias que a gente pode ter ao ser reconhecido, a gente vai ter uma melhoria muito bacana, pelo que eu entendi”, disse Reinaldo.

*Foto de capa: Joice Castro

Reportagem e fotos: Patrícia Castanheira e Brígida Alvim 
Locução: Georgyanne Sena e Rodrigo Teixeira 
Publicação: Rodrigo Teixeira 
Comunicação ATI 39 Nacab