Na última terça (28), foi realizado, em parceria com a ATI Paraopeba, o 4° intercâmbio do Teia Agroecológica de Mulheres. O encontro aconteceu no Quilombo da Pontinha, em Paraopeba, onde os grupos de Soledade (Pequi), Três Barras (Fortuna de Minas), Muquém (Pará de Minas), Cachoeirinha (São José da Varginha), Maravilhas, Esmeraldas e Papagaios se reuniram para conhecer a experiência do território tradicional e da agroindústria de beneficiamento do pequi.
O projeto Teia tem como principal objetivo contribuir para os processos de fortalecimento e auto-organização de grupos de mulheres na Região 3 da Bacia do Paraopeba, atingida pelo rompimento da barragem da Vale, em 2019.
“A gente tem trabalhado aqui e percebido também a força das mulheres dessa comunidade, a organização que elas já têm. E eu acho que esse intercâmbio vem reforçar ainda mais esse poder e esse valor”, avalia a coordenadora do escritório do Nacab em Paraopeba, Daiane Silva.

O intercâmbio foi realizado três dias após ser comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em 25 de julho, que também é o Dia Nacional da Tereza de Benguela. “A gente está hoje aqui, nesse dia tão próximo dessa data comemorativa, num território quilombola fazendo referência à Tereza de Benguela, que foi uma grande liderança, mulher quilombola que comandou um quilombo durante muito tempo e foi resistência em Mato Grosso, então acho que foi uma feliz coincidência”, celebrou Daiane, na mesa de abertura.
Além dela, o espaço contou com a presença de Júnia Lousada, coordenadora do Teia Agroecológica de Mulheres, Normélia Gonçalves, presidenta da agroindústria Pontinha do Sabor e Sandra Aparecida Moreira, presidenta da Associação Comunitária Quilombola da Pontinha. Ao todo, cerca de 50 mulheres estiveram presentes.
“A gente está aí para aprender, para ensinar e a hora que precisar estou pronta para poder ir até em outros intercâmbios, porque é muito bom conhecer histórias e conhecer pessoas diferentes”
Normélia Gonçalves, da agroindústria Pontinha do Sabor
IAPs e agroindústria: onde confluímos
Conhecer a estrutura da Pontinha do Sabor, agroindústria referência no beneficiamento do pequi, era um dos principais objetivos deste intercâmbio. Isso porque a estrutura está para além da área de produção: a Pontinha do Sabor é um modelo vivo de uso de tecnologias socioecológicas e valorização dos recursos do território. Instalada em um lote atrás da escola da comunidade, a fábrica foi construída com apoio do Projeto Pequi, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reunindo diferentes soluções sustentáveis, como energia fotovoltaica, sistema de captação de água de chuva e uma fossa séptica biodigestora de evapotranspiração, que trata as águas usadas na agroindústria.
Essas tecnologias, que visam o melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e uma correta destinação e tratamento dos resíduos, convergem para um horizonte agroecológico, em uma relação mais justa com a terra. A experiência da Pontinha do Sabor, que valoriza um fruto nativo do Cerrado, também serviu de inspiração para os grupos que visitaram a fábrica. Outra tecnologia social que desperta interesse é o uso de salmoura para conservar o pequi durante todo o ano, reduzindo a necessidade de refrigeração e, consequentemente, os custos de produção.
Pela manhã, as mulheres participantes se dividiram em três grupos, fazendo uma rodada entre a agroindústria e as duas Instalações Artístico Pedagógicas (IAP), que pautaram Cultura Alimentar e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs).
A proposta do intercâmbio foi justamente discutir a importância de olhar para o território como um lugar onde se realizam os modos de ser, estar e fazer. E a comida, nesses casos, é uma ótima lente para enxergar essa tradicionalidade que está fincada no chão onde se “panha” o pequi, mas também se revela pelo ensinamento oral, passado de geração em geração, como, por exemplo, o saber tirar a castanha do fruto.
Na IAP sobre cultura alimentar foram debatidos temas importantes e atuais sobre o grau de processamento dos alimentos, o desafio de lidar com produtos ultraprocessados que ameaçam as culturas alimentares, o uso do agrotóxico e a comida de verdade.
Já na instalação sobre PCTs, os grupos trocaram saberes sobre as comunidades tradicionais presentes em cada território da Região 3 e trouxeram propostas de projetos para essas comunidades no âmbito da reparação, destacando a importância de se respeitar os modos de vida que cada grupo compartilha.

“Eu falo do pequi, mas às vezes não tem o pequi, mas tem outros frutos, elas viram lá e conheceram e viram que os outros frutos, outros produtos que elas têm na comunidade, dá para elas também ter uma agroindústria daquela ou até melhor”, diz Normélia Gonçalves sobre a alegria em ver outras mulheres conhecendo a Pontinha do Sabor.
Mudas e sementes para trocar e plantar!
A Troca de Mudas e Sementes, realizada pela segunda vez em um intercâmbio do Teia, foi mais um momento de confluir conhecimentos e modos de vida. Dessa vez, a mesa cheia evidenciava o engajamento provocado pela Troca de Sementes e Mudas ocorrido em junho, em Três Barras. Mais mudas e mais sementes apareceram: pitaia, boldo, cidreira, urucum, fava, milho vermelho e preto, flores e suculentas. Muita diversidade daquilo que é realidade nos quintais da Região 3. Maria Aparecida Gonçalves, de Cachoeirinha, comemorou a troca. Ela levou suculenta e voltou com pitaia. “É um aprendizado novo a cada intercâmbio que a gente está participando”, avaliou.
Confira como foram os intercâmbios anteriores do Teia Agroecológica de Mulheres!
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- “Aprender uma com a outra”: intercâmbio agroecológico evidencia a força e a coletividade das mulheres da Região 3
Texto: Nathália Iwasawa
Edição: Fabiano Azevedo e Júnia Lousada
Fotos: Ariane Silva