“Cada uma tem suas atividades, mas é importante nós continuar firme, unida com esperança de que um dia todas nós vamos ver o fruto do nosso trabalho e vai pensar assim: valeu a pena nós ter perseverado, valeu a pena o nosso esforço, largar os nossos afazeres e sempre estar unida, porque através disso nós somos orientadas e somos fortalecidas”, avaliou Maria de Fátima Felipe, que faz parte do grupo de mulheres Flores do Campo, de Muquém (Pará de Minas).
A fala veio ao final do 3° Intercâmbio do Teia Agroecológica de Mulheres, que reuniu cerca de 40 mulheres no último sábado (27) em Três Barras (Fortuna de Minas). A atividade, promovida pelo Teia Agroecológica de Mulheres em parceria com a ATI Paraopeba Nacab, marca mais um momento de troca de conhecimentos e experiências entre as comunidades da Região 3, especialmente os grupos organizados de mulheres. Para Maria de Fátima, a rede se fortalece: “A gente aprende umas com as outras e somos instruídas a cada dia mais fortalecer o nosso conhecimento”.

O 1° intercâmbio, que aconteceu em março, abordou a memória e a resistência dos territórios e iniciou as oficinas das Cadernetas Agroecológicas. Já o 2° encontro, em maio, deu continuidade ao trabalho das Cadernetas e promoveu uma mesa redonda com a deputada Bella Gonçalves, autora da emenda parlamentar que custeia o projeto Teia. A proposta de circularidade entre comunidades e temas tem como objetivo fortalecer a rede de mulheres do território em seus processos autônomos de produção e comercialização.
A rodada em Três Barras trouxe a experiência da comunidade com o associativismo e as vendas institucionais para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A mesa foi composta por Evaldo Pinto Ferreira, presidente da Associação Comunitária de Três Barras, Nádia Barbosa, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Fabiana Martins, nutricionista e responsável técnica pela alimentação escolar do município de Fortuna de Minas, e Jovina Alves, agricultora familiar e moradora de Três Barras.

O momento de debate foi recheado pela discussão entre a produção agrícola do território e os desafios e as potências de aliar a oferta com as demandas da merenda escolar. “Acredito que a alimentação escolar não começa na escola, ela começa na terra”, explicou Fabiana Martins sobre a importância de olhar para a sazonalidade dos alimentos e para a cultura alimentar do território.
Em abril deste ano, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) publicou a Resolução nº 4/2026, que atualiza as diretrizes do PNAE e redefine parâmetros para sua execução em todo o país, e, dentre essas atualizações, uma vitória para agricultura familiar: estabeleceu-se que o mínimo para a aquisição dos produtos advindos dessa produção passa a ser de 45%. Antes dessa normativa, o mínimo era 30%.
Para Lidiane Gonçalves, do grupo de mulheres de Três Barras e agricultora familiar, receber o intercâmbio na comunidade foi um momento especial. “Outras pessoas de outras comunidades não têm o conhecimento do quão importante é ter uma associação na comunidade. Então só delas vim buscar esse conhecimento pra nós foi muito gratificante”, salientou.
Troca de mudas e sementes
Seja flor ou seja fruto,
toda grande imensidão
começou num breve minuto,
na semente desse chão

Depois do almoço agroecológico e da feira com os produtos dos grupos, a tarde foi preenchida pelo momento mais aguardado pelas mulheres: a troca de mudas e sementes que cada uma trouxe do seu quintal e da sua roça. Feijão azul, milho preto crioulo, burrito, urucum, bromélia, hortelã, mamão, pimenta, serralha… a variedade de plantas indicou a abundância que as famílias têm em casa.
Antes da troca, todas foram convidadas a contar um pouco da história do que foi trazido. À medida em que elas iam apresentando, também indicavam o interesse na muda ou na semente da troca, e assim as negociações iam tomando forma na roda. Lourdes Monteiro, do grupo de mulheres de Soledade (Pequi), conta que a troca foi importante para resgatar plantas que sumiram da sua comunidade. “Na nossa região tinha algumas dessas sementes, mas vai acabando com o tempo e agora a gente tem que voltar a plantar e a colher”, disse. Ao fim, com as sementes em mãos e alegria nos sorrisos, a despedida foi um “até logo”, porque o 4° intercâmbio já está logo na esquina.

Texto: Nathália Iwasawa
Edição: Fabiano Azevedo e Júnia Lousada
Fotos: Nathália Iwasawa