No último sábado (29), os grupos de mulheres da Região 3 se reuniram novamente, dessa vez na comunidade de Cachoeirinha (São José da Varginha), para discutirem os resultados das anotações feitas nas Cadernetas Agroecológicas ao longo de cinco meses, desde a introdução da metodologia, no primeiro intercâmbio do Teia Agroecológica. Além da apresentação dos resultados, o encontro promoveu a escrita de uma carta política dos grupos de mulheres, consolidando um processo de dez meses de trocas e formações.
O encontro celebrou o processo conduzido pelas educadoras Marina Ribeiro e Crisângela Silva, integrantes do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana (AUÊ!), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com apoio técnico e acompanhamento da equipe do Teia.
As Cadernetas Agroecológicas são uma ferramenta política e pedagógica que promove o processo de compreensão do trabalho doméstico das mulheres, principalmente no que diz respeito à divisão sexual do trabalho. Na Caderneta, as mulheres anotam o que consumiram, doaram, trocaram e venderam, e o valor de cada produto. Desse modo, é possível compreender que elas têm um papel fundamental na economia da casa, muitas vezes gerando renda maior do que a do companheiro.

Os dados incluem os meses entre abril e julho de 2026, mas vale destacar que boa parte das anotações foi desconsiderada por causa do preenchimento incompleto da Caderneta, sobretudo pela ausência do valor do que foi consumido, doado ou trocado. A produção foi categorizada em cinco grupos (produtos de origem animal, processados, legumes, verduras e frutas) e somou mais de R$ 18 mil que deixaram de ser gastos com compras em mercados e feiras.
Crisângela ponderou que os valores indicados foram muito subestimados, e que o dinheiro que deixaram de gastar com a compra de alimentos é maior do que foi sistematizado. “O grupo é biodiverso, o grupo tem potencial de trocas, de vendas. Então o instrumento da caderneta, ele conseguiu fazer um enlace entre essas mulheres. Ele conseguiu mostrar para elas que elas são um grupo e que esse grupo pode continuar”, avaliou Crisângela.
Mariza de Paula, da comunidade de São José (Esmeraldas), descobriu que doa mais alimentos do que consome dentro de casa com a sua família. Para ela, o maior desafio foi começar: “depois que começa, você acaba pegando o jeito”.
Os dados apontam para a diversidade de alimentos e produtos produzidos: só de legumes e verduras foram contabilizados mais de 20 tipos. Os resultados também mostram que a Economia Solidária está muito presente enquanto prática dos grupos: muito foi doado e trocado com vizinhos e parentes.
“A Caderneta traz esse olhar para a mulher, para entender a importância que ela tem dentro de casa. Algumas acho que já conseguem perceber isso e outras não, de tão invisibilizado que é o nosso papel. A Caderneta começa a trazer essa luz para que elas levem esse diálogo para dentro de casa, no sentido construtivo”, avalia Júnia Lousada, coordenadora do projeto Teia.
Ao final da manhã, as mulheres se dividiram em grupos para apresentar suas reflexões acerca do que foi conquistado ao longo dos últimos meses, sobre quais serão os desafios para o futuro, e o que precisa ser feito por elas para continuar fortalecendo essa rede auto-organizada. Essas discussões serão incluídas na carta política do Teia Agroecológica de Mulheres, a ser socializada com todos os grupos ao final do projeto e entregue à diretoria do Nacab.

Arte como ferramenta pedagógica
Para celebrar o penúltimo intercâmbio, o Coletivo Histórias de Quintal, de São João del Rei, apresentou a peça A-RO-EI-RA, que conta sobre a infância dos irmãos Bento e Mariana na casa da avó. A narrativa brinca com o real e o mítico, unindo a contação de história e música para refletir sobre os conflitos socioambientais provocados pelos empreendimentos de mineração nos territórios. Além disso, a peça articula oralidade, cosmologias africanas e afro-brasileiras, brincadeiras de infância e elementos do cotidiano.
Rosilene Gomes, mobilizadora do Teia na comunidade de Três Barras (Fortuna de Minas), contou que a apresentação fez lembrar da infância vivida no quintal do vizinho. “Ao mesmo tempo deu muita tristeza, né? Porque falou sobre a mineração, o que a mineração faz nos territórios atingidos. E assim, é muito triste, né? Saber que a gente está tão próxima dessa realidade”, disse.

Em setembro o projeto Teia realiza o último Intercâmbio Agroecológico na Região 3. Confira os anteriores:
Texto: Nathália Iwasawa
Edição: Fabiano Azevedo e Júnia Lousada
Fotos: Nayara Lopes